*Apresentação publicada na primeira edição do livro.

Por Thiago Thomazini

Não houve nem a delicadeza de um pedido, foi praticamente um decreto quando o Kiko me jogou nas mãos o original de ÁGUAS CÁLIDAS impondo:

– Leia e faça a apresentação do meu livro!

Assim, dominador, mandão. Adjetivos que, absolutamente, não correspondem com o jeito tranquilo e pacato do meu amigo. “Que responsabilidade!”, pensei. Logo eu, tímido escritor, quase de gaveta, que ainda navega nas águas turbulentas do amplo e misterioso oceano da literatura. Poderia simplesmente negar, inventar uma desculpa esfarrapada o que não condiziria, óbvio, com o meu frenético e incessante gosto por desafios.

Os fatores confiança e afinidades de ideias e ideais deram- me a certeza de que poderia mergulhar tranquilamente nessas águas que chegaram de mansinho, pequenas ondas arrebentando em meus pés e que logo me engoliram, arrebatadoras, dentro de um tubo perfeito que fui deslizando numa prancha imaginária, desafiando a linha tênue entre a vida e a morte, indagando, a todo instante, o que em mim, em nós, é escolha e o que é destino.

O domínio da linguagem e os personagens tão bem estruturados psicológica e socialmente nos apresenta um Kiko Riaze mais maduro e seguro na sua literatura que podemos perceber mais livre, sem amarras… assim como o próprio mar.

Se imaginávamos que DEPOIS DE SÁBADO À NOITE fosse procedido por uma ressaca, realmente acertamos. Mas não aquela ressaca proveniente do álcool, torpe e vulgar das noites bêbadas e mal dormidas. Mas sim a ressaca desse grande oceano que nos rodeia e que, com sua fúria, representada pelo turbilhão de suas águas agitadas, autentica o poder de sua natureza primal. O que, no caso de um escritor, traduz-se no completo domínio da criação: quando a palavra torna-se instinto.

A água, por toda sua simbologia, é que conduz a história, como uma mola propulsora, um fio condutor que se ramifica nos suores, nas lágrimas, nas salivas que se desprendem das falas e dos beijos dos personagens e também no sangue. No sangue que une e também no sangue que é derramado. Água que está em tudo e em todos e que tem no mar a sua grande matriz. O mar, esse nosso tão conhecido e desconhecido, é assim como a vida. Talvez a tradução mais perfeita e poética da vida que é tão conhecida e tão desconhecida de todos nós. Esse mesmo mar que é tão personagem quanto todos os outros do romance é que torna a narrativa tão fluída, instigante e universal.

Vejo ÁGUAS CÁLIDAS como um romance-líquido extremamente imprescindível para aqueles que precisam matar a sede de viver e de amar.