” Depois do Sábado a Noite – por Ferdinando Martins (22/01/09)

Há bons sinais de que a literatura com temas homoeróticos no Brasil vem de fato configurando um mercado editorial próprio. Tanto que, de tempos em tempos, surgem novidades que surpreendem pela qualidade e inovação.

É esse o caso de Depois de sábado à noite, primeiro romance de Kiko Riaze. Com talento, o autor alia uma minuciosa observação do universo gay com a capacidade de escrever de maneira fluida, com ganchos que prendem o leitor e o fazem querer saber qual o próximo evento. A história central é a de Cadu, um jovem que anda à procura de um grande amor. Só não o encontra, talvez por não procurar nos lugares certos, talvez por esperar demais de uma relação.

Quem leu  Trem Fantasma, de Carlos Hee, vai se surpreender com a coincidência de estilo de vida gay urbano dos anos 1970. Nem a AIDS, nem a visibilidade ganha com as paradas e a mídia, modificaram a dificuldade de se estabelecer vínculos afetivos mais duradouros. Ainda que Kiko mostre que é possível, sim, construir relacionamentos ricos e estáveis entre dois homens, não esconde o hedonismo e a falta de perspectivas, sobretudo do universo barbie, do circuito academia-pool party-dark room.

Nas histórias paralelas, desfilam tipos que povoam o mundo gay. Daí aparece desde a amiga gay friendly que revolta-se ao descobrir um homossexual em sua família até o pai de família que procura sejo casual nos espaços de pegação. Causa compaixão a história de Félix, amigo que prefere trancar-se no armário ao invés de reivindicar seus direitos.

A medida que a história avança, a narrativa torna-se mais dinâmica, conduzindo, como se espera de um bom romance, a um final supreendente. E como é padrão da editora Fábrica de Leitura, há ainda um “poema-presente para o leitor”, prática já utilizada no livro de Klécius Borges, Desiguais.

Ótima estréia! “