Blog

O blog Subvertendo Convenções

Kiko Riaze

De 2008 a 2011, em paralelo às suas atividades como autor de livros com temática gay, o escritor Kiko Riaze manteve o blog Subvertendo Convenções com o intuito de debater questões ligadas à homossexualidade da forma mais aberta e natural possível.

Seu objetivo era incentivar uma troca de ideias sobre o tema e contribuir para que os leitores refletissem sobre suas vidas, quebrassem tabus, resolvessem conflitos internos relacionados à sexualidade e abrissem as suas mentes para uma vivência mais plena, mais atuante e mais feliz. E ele acredita ter alcançado este objetivo, tantos foram os e-mails, comentários, desabafos e agradecimentos recebidos ao longo deste tempo.

Agora os artigos que mais deram o que falar podem ser lidos e relembrados aqui, neste espaço.

Obs: Caso deseje usar estes textos em seus sites, blogs e trabalhos, fique à vontade, mas não esqueça de citar a fonte. É uma questão de respeito.

ARTIGOS :

__________________________________________________________________________________________________________

A homofobia só persiste porque somos todos passivos 

Por Kiko Riaze (20/11/10)
Recebi um e-mail de um leitor do blog me questionando porque eu não postei nada sobre os episódios de violência homofóbica ocorridos no Rio e em São Paulo na última semana. Logo eu (segundo palavras dele) que estou sempre disposto a debater e denunciar estes assuntos por aqui.
Ele citou o caso do jovem baleado por militares do exército após a Parada Gay de Copacabana e o caso dos adolescentes agredidos na Av. Paulista e me perguntou se eu não estava acompanhando estas notícias.
Sim, claro que eu estava. Não apenas estas, como também a notícia sobre o texto escrito pela alta direção da conceituada universidade Mackenzie repudiando o projeto de lei contra a homofobia.
“A Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada lei da homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia…” “…e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais. ” Rev. Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Mackenzie – SP.
Estive acompanhando todos estes casos de homofobia divulgados na mídia, sim. Revoltado e indignado como sempre. E seria muito fácil vir aqui simplesmente para denunciar e metralhar a sociedade homofóbica num tom de revolta de classe oprimida. Mas eu não conseguiria fazer isso sem apontar o dedo para a própria comunidade gay.
Imaginem vocês que também nesta semana um amigo veio me dizer que eu perco tempo demais dando importância a estas coisas, que eu deveria “ligar o foda-se” como a maioria e viver a minha vida sem me preocupar tanto.
Ironicamente, este mesmo amigo estava lá na parada gay no meio da multidão. Ou seja, poderia ter sido ele o jovem agredido, mas como não foi, ele simplesmente não se importa…
Mas afinal, o que ele estava fazendo lá debaixo da bandeira do arco-íris, símbolo do movimento LGBT em todo o mundo? A resposta é fácil: se divertindo apenas, como a maioria.
Será que ele sabe alguma coisa a respeito de Stonewall e do verdadeiro sentido de uma parada gay? Duvido muito…
Nós gays somos oprimidos porque permitimos que seja assim. Imaginem o que aconteceria se os milhares de gays que tomam toda a Avenida Paulista e a Avenida Atlântica para rebolar suas bundas todos os anos resolvessem se unir para iniciar uma revolução! Tenho certeza de que muita coisa mudaria, pois ao contrário do que pretendem nos fazer acreditar, nós não somos um grupo tão minoritário assim. Juntos, somos bem numerosos e significativos. E estamos em toda parte, em todos os setores da sociedade… Podemos promover uma grande reforma se quisermos.
Entretanto, somos passivos (com perdão do trocadilho) em relação a tudo o que acontece. Milhões de pessoas vão ferver nas paradas gays, nas boates e festas, mas pergunte quantos gays assinaram a campanha Não Homofobia, por exemplo?
Tem muito gay por aí que desconhece totalmente a existência do PLC 122… É lamentável.
Por essas e outras, eu não fui à parada gay de São Paulo, não fui à parada gay do Rio e não pretendo ir a mais nenhuma, até ter certeza de que não estarei apenas fazendo parte de uma massa alienada que não chegará a lugar algum.
Não quero fazer parte de um evento que deixou de ser a luta de uma minoria para se transformar num grande carnaval lucrativo para a cidade e lucrativo para os organizadores que, após receberem suas rechonchudas verbas, vão planejar suas viagens ao exterior, trocar seus carros e reformar seus confortáveis apartamentos enquanto a população festiva e colorida permanece sem direitos e sendo violentada nas ruas…
Uma mudança de postura da população LGBT se faz necessária já.
Ou viveremos sempre à mercê de políticos que simplesmente desprezam os nossos direitos em troca de votos e favores pessoais. Ou viveremos por muito tempo num país onde a direção de uma universidade, que tem o papel de formar cidadãos, publica em seu site oficial um texto a favor do preconceito; ou viveremos numa nação em que os militares atentam contra a população que deveria proteger motivados por puro ódio homofóbico; numa sociedade que fundamenta sua barbárie nos valores preconceituosos de uma religião.
A homofobia mata sim, mas alguém já parou para pensar que a apatia dos gays diante de tudo isso é a bala da arma que aponta para suas próprias cabeças?
Pensem, pensem, pensem…

_______________________________________________________________________________

Amar pra quê?

Por Kiko Riaze (11/09/10)
Uma das primeiras coisas que eu aprendi quando conheci a filosofia budista foi a noção do “desapego”. Segundo Buda, os seres humanos sofrem porque se apegam demais aos seus desejos. Desejamos um amor, um carro, uma casa, um bom emprego, reconhecimento profissional, etc, etc… São os nossos desejos que nos movem. A sociedade em que vivemos nos oferece um leque enorme de atrativos que alimentam estes desejos ao mesmo tempo em que nos cobra o sucesso para obtê-los. E a partir daí sofremos… Sofremos por não alcançar o que desejamos, sofremos por perder aquilo que já temos, sofremos também só de imaginar que um dia poderemos perder as coisas e pessoas que “possuímos”. Até mesmo os ricos que podem ter tudo que desejam (em termos materiais) sofrem porque esbarram no tédio… Tédio por ter todos os seus desejos realizados. É o que Freud também dizia a respeito da ausência de sentido na vida depois de se ter tudo conquistado.
Nós esperamos demais das coisas que desejamos. E quando alcançamos vemos que não é tudo aquilo e logo procuramos outra coisa para desejar. E assim vamos vivendo a vida, sempre desejando mais e mais… É como se estivéssemos sempre adiando a nossa felicidade para algum ponto no futuro que ainda vamos alcançar. Para Buda, e também para Freud milênios depois, a saída para esse sofrimento é o desapego.
E isso também serve para as questões emocionais.
O amor sempre vai trazer sofrimento. Não adianta virem os mais românticos dizendo que isso é negativismo, porque não é. Isso é realismo. Na nossa vida nada é permanente. Aquela famosa frase “o que é bom dura pouco” é uma grande verdade. Os relacionamentos não duram para sempre. Acabam por vários motivos: por causa de brigas, traições, desgaste, porque o sentimento esfriou, porque nosso par se apaixonou por outra pessoa ou, em último caso, pela morte. E qualquer que seja o motivo da separação sempre vai haver sofrimento.
Ora, se devemos nos desapegar para evitar o sofrimento, então para quê amar?
Seria muito menos doloroso dispensar este sentimento para nos poupar de uma dor no futuro… Mas seria possível viver sem amor?
Nós somos dependentes sentimentais desde quando nascemos e somos amamentados pela nossa mãe. Procuramos sempre nos apoiar em um amor. Precisamos nos sentir protegidos, precisamos de um amparo nos momentos difíceis. Amamos para preservar nossa sobrevivência. É instintivo.
Para mim esta sempre foi a parte mais difícil de compreensão na filosofia oriental. Quanto às coisas materiais nunca tive problemas, pois não me apego mesmo. O meu problema é o tal apego sentimental. Meu coração é vagabundo. Sempre me apaixonei muito fácil. Meus períodos de solteirice sempre foram curtíssimos, porque eu sempre estive disposto a me amarrar em alguém. Uma carência que só Freud explica.
Acho que por isso já me estrepei em tantas relações. Se não fosse tão apegado, sofreria menos…
Mas e aí, devemos ser indiferentes às pessoas para não sofrer?
Foi o que eu perguntei ao professor do Puja budista quando discutíamos justamente a questão do desapego. Ele respondeu que não. Não devemos ser indiferentes às pessoas. O desapego consiste em anular aquela idéia de posse que temos sobre as coisas e pessoas na nossa vida. Nós podemos amar e desejar tudo o que quisermos, mas devemos ter sempre em mente que nada é permanente nesta vida e que as coisas e pessoas só estão conosco “emprestadas” e um dia partirão.
Desta forma nos desapegamos daquela vontade de possuir e aprisionar as coisas e pessoas ao nosso lado. Isso não quer dizer que a vida vai ficar sem sentido e nós vamos ficar parados com cara de paisagem assistindo as pessoas indo e vindo sem fazer nada. Mas ao invés de tentar possuir um amor e acorrentá-lo em vão de forma doentia, nós devemos perceber que o mais importante não é o amor que tentamos possuir, mas sim aquele que podemos doar.

_______________________________________________________________________________

A questão sexual nas entrevistas de emprego

Por Kiko Riaze (05/07/09)
O assunto deste tópico surgiu num papo super legal com uma amiga que trabalha com Recrutamento e Seleção.
Segundo ela, é normal ver homossexuais tentando esconder sua orientação sexual nas entrevistas de emprego. Muitos entrevistadores não percebem, mas ela, que é lésbica, sabe muito bem quando alguém está tentando “fazer linha”.
Isso ocorre, obviamente, por medo de eliminação no processo seletivo causado por algum possível preconceito do entrevistador, como se a orientação sexual determinasse as competências profissionais de alguém. Nós, gays, sabemos muito bem que isso é uma injúria, mas os héteros sabem? Parece que não…
Pode parecer absurdo, mas em pleno século 21 os homossexuais ainda precisam se esconder para conseguir uma vaga de emprego. Qualquer gesto ou palavra que denuncie a orientação sexual pode ser suficiente para um candidato ser eliminado.
A Constituição Federal é clara: é proibida a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil. Porém, a lei (como sempre) não faz menção à orientação sexual do trabalhador deixando uma brecha para que os empregadores dificultem a admissão de homossexuais.
Minha amiga me contou o caso de uma entrevista simultânea com 3 candidatos, uma mulher e dois homens. A entrevistadora percebeu que a mulher era lésbica e perguntou sobre a orientação sexual dela na frente dos outros dois candidatos e qual era a opinião dela a respeito da homossexualidade. Super constrangida, a candidata tentou desviar da pergunta e quis saber o que aquilo tinha a ver com o cargo concorrido. A entrevistadora, então, reagiu dizendo: “Você está preocupada por quê? Tem algo a esconder?”. Obviamente, a candidata respondeu, mas nem é preciso dizer que ela perdeu a vaga.
Absurdo, mas real.
Como se não bastasse a problemática da entrevista de emprego, o homossexual que consegue a vaga ainda tem que enfrentar o preconceito dentro da empresa, dos chefes e dos colegas de trabalho. Muitos não conseguem sequer uma promoção, ainda que mereçam, e acabam sendo preteridos por outro funcionário muito menos competente, porém heterossexual.
Mas é bom que estes empregadores homofóbicos abram o olho: Na 5a feira passada o TRT de São Paulo determinou que as Casas Pernambucanas pagasse uma indenização de mais de R$ 23 mil para um funcionário gay que era alvo de discriminação.
De qualquer forma, aí vai um conselho dado pela minha amiga profissional de RH: numa entrevista de emprego, a melhor atitude a adotar diante de uma pergunta invasiva ou desnecessária (seja pessoal, religiosa ou sexual) para avaliar suas habilidades é a tática do “espelho burro”, que é devolver a questão, de forma educada e simpática. Pode ser uma estratégia. Mas é preciso estar preparado para a reação do entrevistador.
E lembre-se: Homofobia ainda não é crime no Brasil, mas Danos Morais, sim.

_______________________________________________________________________________

A síndrome de Peter Pan gay

Por Kiko Riaze (04/04/09)
Quando chega os 40…
Não escrevo este post com a categoria de quem vivencia a realidade de ter 4.0 ou mais, afinal ainda vou entrar na casa dos “inta”…Mas o tempo passa tão rápido que logo logo estarei chegando à casa dos “enta” e não sei porque – talvez a proximidade do meu aniversário de 30 anos – estive refletindo esta semana sobre a vida dos homossexuais de meia idade.
E todos os exemplos conhecidos que tomei como base para minha reflexão, me fizeram ter certeza de uma coisa: Uma grande parte dos gays têm síndrome de Peter Pan.
Não se trata de uma crítica, apenas uma observação do mundo ao meu redor. Particularmente, eu não conheço um gay que seja totalmente despreocupado com a idéia de envelhecer. Já ouvi, inclusive, a seguinte frase de uma pessoa: “Ficar velho? Deus me livre! Prefiro morrer antes!”. Parece algo falado meio sem pensar, mas eu tenho quase certeza de que muitos já pensaram assim. Talvez hoje em dia as pessoas não sejam tão extremistas e a frase soe melhor desta forma: “Ficar velho? Deus me livre! Vou colocar botox, puxar aqui, puxar ali…”. Menos dramática, é verdade, mas não menos fútil.
Afinal de contas, o que há de errado em envelhecer no meio gay?
As respostas não são difíceis de se encontrar. A primeira delas, e que vem automaticamente à minha cabeça é o fator perda de atratividade sexual. Para a grande (grande mesmo!) maioria dos gays, o importante é ser atraente sexualmente, isto porque o gay geralmente é muito ligado ao sexo. O hedonismo, o culto à beleza e à juventude fazem parte da cultura gay. Para um gay mais velho é uma verdadeira derrota estar em algum lugar e não ser notado, ou pior, ser rejeitado simplesmente por não ter mais aquele viço da juventude. E isto acontece com frequência.
A rejeição pela velhice é tão grande que os próprios gays mais velhos a rejeitam. Diferente dos héteros que buscam um parceiro maduro, da mesma faixa etária para manter uma relação, muitos gays mais velhos normalmente são vistos “caçando” garotões. E não é raro que o garotão se aproxime apenas para se aproveitar financeiramente (Atenção ao texto antes que alguém venha me jogar pedras: Eu disse “não é raro”, ou seja, não estou generalizando! Lógico que há caras mais novos que curtem mais velhos) . Mas voltando aos garotões interesseiros…Nestes casos, a carência do mais velho é tão grande que ele fica cego, ou então, deixa-se enganar de forma consciente. É tudo muito clichê, mas infelizmente é assim que acontece na maioria dos casos. No final, acabamos vendo sempre a mesma história: o garotão dando o pé na bunda do mais velho e este sofrendo e caindo numa profunda depressão.
Se, talvez, o gay mais velho não tivesse a tal síndrome de Peter Pan, tal coisas não aconteceriam, pois ele não estaria preocupado em arrumar um garotão para exibir aos colegas e se autoafirmar sexualmente. Ao invés disso procuraria um homem de sua idade (isso vale também para idade mental) , com experiência e a fim de se relacionar de forma madura.
Em outros casos, eu observo que a síndrome de Peter Pan é tão aguda, que o gay quarentão (ou cinquentão, ou mais) parece não tomar consciência de sua idade e age como os gays novinhos e imaturos. Já vi muito coroa na pista de dança das boates tirando a camisa pra exibir seus músculos já não tão rígidos e atirando para todos os lados, como se fosse um jovem em plena fase de apetite sexual.
É claro que eles podem fazer isso, se quiserem e se sentirem bem, afinal são donos de suas vidas, mas como já tinha dito antes, estou apenas analisando o que há por trás dessas atitudes muitas vezes infantilizadas.
Outro ponto que eu percebo é que o medo da velhice vem acompanhado do medo da solidão. Héteros normalmente se casam, têm filhos, plantam a sementinha da posteridade. Os gays têm mais dificuldade para construir uma relação por vários motivos e muitos chegam à meia idade solteiros e muitas vezes, até distantes de suas famílias. Isso obviamente deve causar certo pânico e muitos questionamentos, tais como: Será que vou envelhecer sozinho? Quem vai cuidar de mim? Eu não vou deixar nenhum legado neste mundo?
Aí rola uma crise existencial, pois eles acabam se comparando errôneamente ao heterossexual. Para fugir dela, muitos preferem se esconder nas roupas do Peter Pan e agir como adolescentes, pensando apenas no aqui e no agora.
Mas e aí? Como fugir da Síndrome de Peter Pan?
Não deve ser tão fácil, pois se fosse muitos gays não estariam preocupados com as suas rugas. Mas talvez não seja tão difícil assim, basta que o gay se liberte desta prisão narcisista que o cerca. Dar mais valor a outras coisas mais importantes, aos sentimentos, ao seu crescimento como ser humano e, até mesmo ao seu crescimento espiritual , seja lá como cada um interprete isso.
Ao meu ver, toda esta cobrança estética é muito chata e acaba nos levando a um grande abismo. Pode ser que a síndrome de Peter Pan se aproxime de mim quando eu chegar aos quarenta, não posso dizer que estou totalmente imune a ela, afinal, também convivo neste meio, mas acho que estou preparado para enfrentar o espelho daqui a alguns anos sem grilos. Mesmo porque as transformações já começaram. Estou aprendendo a conviver com elas gradualmente. É natural, não tem como fugir disso. Como se diz por aí, a idade está na cabeça.

_______________________________________________________________________________

 A sauna gay e a propriedade do homem sobre si mesmo

Por Kiko Riaze (01/10/11)
O filósofo liberalista inglês John Stuart Mill (1806-1873) pregava a autonomia do homem sobre si mesmo e criticava o controle que a sociedade exerce sobre os indivíduos através de regras de etiqueta e moral, as quais ele chamava de “tirania da maioria”. Para os liberalistas, o direito de propriedade sobre si mesmo é o direito de agir livremente com o seu corpo, desde que as suas decisões não agridam o outro indivíduo.
É um pensamento com o qual eu sempre concordei e utilizo antes de fazer qualquer tipo de julgamento. O ato de julgar as pessoas, aliás, sempre chegou a mim com certo ar de pedantismo e algum ranço religioso imposto e, por isso, sempre procurei me policiar para não deixar os pré-conceitos falarem mais alto e, nestas situações, a filosofia dos liberalistas são para mim um grande auxílio.
Ontem, por exemplo, eu evoquei John Stuart Mill mais uma vez durante uma conversa com um amigo gay. Ele, num tom de surpreendente moralismo, criticou ferozmente outro amigo nosso, freqüentador assíduo de saunas gays. Foi um discurso descabido cheio de adjetivos preconceituosos e lições de moral, chegando ao ponto de julgar o caráter dele apenas pelo fato de o rapaz ser freqüentador de tais ambientes (palavra esta que ele pronunciava com um desdém digno de sermão de crente conservador).
Em minha opinião, chega a ser um contra-senso perceber que uma comunidade que tanto luta pelos direitos de escolha se esforce para execrar aqueles que praticam sua sexualidade de forma mais libertária, embora não seja difícil concluir que este preconceito seja fruto da sociedade na qual estamos todos inseridos, tão cheia de valores hipócritas e moralistas e que ainda trata o sexo de forma restritiva, associando-o, muitas vezes, ao pecado.
As saunas gays, cuja origem pode ser remetida aos banhos gregos e termas romanas da antiguidade, tornaram-se espaços de libertação sexual inseridos no meio de uma sociedade cerceada e predominantemente heterossexual. Em sua maioria, as saunas são freqüentadas por homens maduros buscando os prazeres do sexo passageiro, anônimo e descompromissado. Muitos deles, inclusive, levam uma vida “heterossexual” no dia-a-dia (são noivos, casados, gays não assumidos) mas fazem das saunas um meio furtivo de liberar suas fantasias e desejos sexuais latentes e tão reprimidos. Outros freqüentam estes espaços por puro vício ou hedonismo.
Justificáveis ou não, os motivos que levam estes homens ao sexo anônimo das saunas dizem respeito apenas a eles. Se sairão de lá realizados ou imersos em frustração e remorso, ou sentindo-se vazios por dentro, não nos cabe especular. Cada pessoa sabe de si e qualquer tipo de repressão a este direito é ilegítima. A discussão pode até ser aberta e as opiniões são livres, mas o julgamento não deveria existir, pois como disse John S. Mill: ”Sobre si mesmo, sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano” – frase escrita em sua obra intitulada “Liberdade”, que resume o seu pensamento liberalista e, ao meu ver, encerra com perfeição o assunto.

 ________________________________________________________________________________

As rugas gays

Por Kiko Riaze (17/03/11)
“Tudo o que nasceu vai morrer, tudo o que foi reunido será espalhado, tudo o que foi acumulado terá fim, tudo o que foi construído será derrubado, e o que esteve nas alturas será rebaixado… A vida é impermanência.”
Siddartha Gautama, o Buda (563 a.C – 483 a.C)

“Nada nesta vida é permanente, exceto as mudanças”
Heráclito de Éfeso, filósofo grego (540 a.C -475 a.C)

Está aí uma grande verdade: nada é permanente nesta vida. Absolutamente nada. Nenhum fenômeno, nenhuma emoção, nenhum estado de ser. Tudo passa, inclusive nós mesmos. Sabemos disso, mas nos negamos a pensar a respeito. Preferimos nos distrair com o agora, como se o “agora” fosse a nossa realidade permanente. Mas não é.
Aparentemente, não há mal algum em se distrair com o “agora”, o problema é que quando as mudanças vêm, nós acabamos sofrendo mais do que deveríamos por tê-las ignorado durante todo tempo.
Um bom exemplo disso é a velhice. Quase todo mundo tem medo de envelhecer e rejeita a idéia de ser/estar velho, embora todos saibam que a velhice é inevitável a todos os seres. Mesmo assim é um grande tormento para a maioria. Gays, pelo que observo, parecem temer ainda mais.
Certa noite eu estava num point gay de Niterói e, no meio da muvuca, me chamou a atenção um cara sem camisa exibindo seus músculos, todo posudo, empinado e depilado. Nada de tão incomum em se tratando de um point gay no Rio de Janeiro, com a diferença de que ele já era um homem de uns 50 anos e estava me chamando atenção não pelo seu físico (que realmente estava em forma), mas pelo seu rosto alteradíssimo por muitas – e visíveis – cirurgias plásticas. Ele era uma coisa realmente estranha: rosto esticadíssimo, botox, boca de coringa com lábios à la Angelina Jolie e lentes de contato “gritando” nos olhos. Todo mundo olhava e comentava quando ele passava.
Eu o fiquei observando e, naquele momento, enxerguei nele um homem completamente desesperado, se agarrando com todas às forças a uma juventude que já está se esvaindo. Aquele homem, certamente, se recusa a envelhecer. Deve estar atormentado com as mudanças que o espelho joga na cara dele, implacavelmente, dia após dia.
Mas eu o entendo bem. Ele deve saber perfeitamente que a cultura gay é cruel com os idosos, que a beleza e a juventude parecem se sobrepor a qualquer outro valor, que gays idosos são ridicularizados pelos próprios gays e que, por causa disso, a solidão na velhice é iminente.
Eu sei disso porque faço parte deste mundo, também tenho minhas preferências e os meus medos. Mas eu compreendo o princípio da “impermanência” de que falavam as idéias filosóficas de Heráclito e de Buda, e sei que a beleza da juventude vai passar para dar lugar a outros tipos de atrativos, muito mais consistentes e valiosos.
Assusta um pouco, sim, mas é preciso aceitar para não sofrer. Faz parte da nossa natureza. Vou assimilando isso dia após dia, para que eu não seja como aquele homem plastificado da praça e me transforme numa caricatura de mim mesmo.
Todos nós precisamos aceitar que tudo passa. Acho que só desta forma poderemos ter uma velhice tão plena e satisfatória quanto a tão exaltada juventude. E assim, aprender a respeitar os outros também.

_______________________________________________________________________________

Ativo X Passivo: quando o jogo vira

Por Kiko Riaze (07/09/09)
Não há nada tão marcante no mundo gay quanto a dicotomia Ativo X Passivo. Como se não bastassem as gavetas etiquetadas que determinam a identidade sexual, muitos gays ainda encontram em si outras subdivisões que limitam a sua sexualidade em quem come e quem dá na hora da transa.
Já vi inúmeros artigos de sexólogos e psicólogos a respeito deste tema e, praticamente, todos concordam que esta é uma questão herdada da heteronormatividade. É como se os gays projetassem para o seu universo a imagem do casal homem X mulher e, assim, definissem também a sua relação.
O problema, ao meu ver, é quando estas posições passam a determinar não apenas a vida sexual dos gays, mas também a vida amorosa.
Conheço muitos casais gays com posições sexuais bem definidas que terminaram o relacionamento porque, em determinado momento – ou em apenas uma transa – um dos parceiros resolveu inverter as posições. Quando isso acontece, tudo que envolve a relação parece se tornar pequeno diante deste “problemão”. Coisas importantes como o companheirismo, a cumplicidade, os planos futuros, e até mesmo o amor são desprezados e esmagados por este trator chamado sexo que, infelizmente, parece conduzir boa parte das relações homossexuais.
É bastante comum ver gays passivos, ou como dizem por aí, as famosas e ortodoxas PAM’s (Passivas Até a Morte), verem o chão abrir aos seus pés quando seus “bofes” resolvem dar. É como se o príncipe virasse sapo de um minuto para o outro, uma catástrofe absurda e impensável. Alguns até têm pesadelo só de pensar em comer o próprio bofe ou querem se matar quando descobrem que o bofe já foi passivo para alguém alguma vez na vida. Parece absurdo, mas não é…Conheço muita gente assim.
Há ainda aqueles que fazem o “esforço” de inverter as posições na hora da transa, mas o final é sempre o mais previsível: o relacionamento acaba e a caça pelo parceiro compatível começa outra vez, num ciclo que parece sem fim.
Óbvio que cada pessoa tem a sua preferência ou se sente mais confortável em determinada posição, mas será tão difícil ceder alguma vez para dar prazer a alguém que se ama?
Se há sentimentos envolvidos, eu não acho que deveríamos encarar uma possível troca eventual de posições como um bicho de sete cabeças a ponto de abalar as estruturas da relação.
Uma vez me disseram que eu levanto a bandeira da versatilidade por causa desta minha opinião e me disseram isso num tom de reprovação, de discordância, como se o correto fosse existir apenas o ativo e o passivo. Eu sempre achei esse engessamento sexual muito chato e delimitador demais, e que acaba gerando tabus quando o “jogo vira” (e sempre vira, em algum momento). Por isso, continuo achando que este “detalhe” não deveria nunca abalar uma relação madura, pelo contrário, deveria fortalecer, pois ambos estariam se permitindo conhecer ao máximo, mesmo que sempre haja uma tendência para um lado ou outro. Afinal, este é o interessante do relacionamento gay: as várias formas possíveis que a homossexualidade permite de dar e sentir prazer.

_______________________________________________________________________________

A utopia do macho ideal

Por Kiko Riaze (18/12/10)
“Macho, corpo atlético, ativo e totalmente fora do meio gay.”
Quem acabou de ler isto deve estar imaginando que é um daqueles conhecidos textos que já estamos cansados de ver nas salas de bate-papo e nos perfis de pegação gay. Mas não se trata disto. Esta, na verdade, é exatamente a forma como meu amigo Carlos (nome fictício) classifica o seu modelo de homem ideal para namorar.
Quando eu conheci Carlos, há alguns anos atrás, ele estava passando por uma fase de desilusão amorosa. Estava triste, solitário e vivia se queixando por nunca conseguir encontrar o seu macho ideal. Entretanto, ele não desistia de sua busca e estava sempre tentando se envolver com alguém.
Hoje, aos 45 anos de idade, nada na vida amorosa de Carlos mudou. Ele continua sozinho à espera do seu príncipe encantado: um macho do tipo hétero mandão, fiel e dedicado que virá “desposá-lo” e fazê-lo feliz para sempre. Uma fantasia que ele já alimenta há anos e que acabou se transformando num grande abismo à medida que o tempo foi passando.
Carlos está visivelmente desiludido. Tudo isto por causa desta idealização extrema que afeta boa parte do mundo gay.
Assim como Carlos, existem inúmeros gays que passam a vida inteira sonhando com a chegada do Príncipe-Bofe-Encantado, macho, ativo e fora do meio. É obvio que a figura do príncipe encantado faz parte do imaginário, mas os gays tendem a ser muito mais fundamentalistas dos que os héteros nesta questão.
Isto, certamente, é causado pelo vasto leque de possibilidades que o meio gay oferece. É muito homem disponível para se conhecer. É muito sexo fácil. E quanto maior o número de opções, mais difícil é a escolha, pois tendemos a ser criteriosos demais. E os critérios para definir o macho ideal são os mais variados possíveis, desde os mais sentimentalistas aos mais fúteis e banais, como por exemplo, o status social, a beleza estética e, até mesmo, o tamanho do dote.
Esta idealização do príncipe encantado se torna um entrave nas relações amorosas, pois as pessoas acabam sendo descartadas como meros objetos pelo simples fato de não atenderem a esta ou aquela expectativa. O mais intrigante é que na maioria das vezes são detalhes pequenos que fazem a diferença. Detalhes que não importariam nada se o foco estivesse voltado para coisas mais significativas, como o companheirismo, o caráter, a vontade de se relacionar, o carinho e todos os outros sentimentos mais nobres e consistentes.
A famosa “pinta”, por exemplo, costuma ser um dos pontos mais rejeitados desta eterna busca. Uma boa parte dos gays é unânime ao afirmar que tem preferência por homens másculos, do tipo bofão, que não demonstra nenhum trejeito afeminado e não escorrega nas gírias.
Isso me faz lembrar da seguinte frase que ouvi certa vez: “ Se machos gostam de machos e bibas gostam de machos, então, quem gosta das bibas?”
É lógico que gosto não se discute, mas nesse aspecto há muito mais do que uma simples questão de preferências. Há um calo cultural, preconceituoso e machista que já está enraizado na nossa sociedade e é difícil de remover até mesmo entre os gays.
A maioria das bibas sonhadoras que esperam aquele Príncipe-Bofe-Encantado que vem de fora do meio gay para buscá-las em cima de seu cavalo branco e bem dotado acabam se desapontando. Muitas se envolvem com homens casados ou mal resolvidos que não querem nada além de sexo furtivo ou outro tipo de interesse ($). Ou terão que se contentar com apenas alguns momentos de prazer ou irão sofrer pela falta do amor que o bofe nunca vai dar.
Carlos, por exemplo, me confidenciou em nosso último encontro que frequentemente busca homens “héteros” na internet ou vai a saunas a fim de pagar michês para satisfazer suas necessidades e cobrir o vazio deixado pela falta de um amor. Já que o macho ideal não aparece, Carlos não se importa em alugar um bofe por alguns minutos.
Infelizmente, é o que acontece com muitos. Mas são poucos aqueles que param de se queixar e de culpar os outros pela falta de sorte na vida amorosa para refletir sobre de quem é verdadeiramente a maior parcela de culpa.
Passar a vida esperando o príncipe encantado é perda de tempo. Ainda mais se este príncipe tiver o mesmo perfil do macho ideal de Carlos.
Parafraseando Arnaldo Jabour: o que você procura pode ser impossível de achar, então, procure algo que você pode achar e seja feliz ao invés de passar a vida inteira procurando algo indefectível que você nunca vai encontrar.

ps: Este artigo de minha autoria foi publicado originalmente (e na versão completa) na revista A CAPA.

_______________________________________________________________________________

Backlash

Por Maicon Benedito – colaborador (09/08/11)
“But the world is big Big and bright and round
And it’s full of folks like me
Who are black, yellow, beige and brown
Mr.Backlash,I’m gonna leave you With the backlash blues”

Escolhi a música da cantora Nina Simone para fazer um gancho com o que vou escrever. A música chama-se Backlash Blues e foi escrita por Nina no contexto das lutas do Movimento Negro americano por direitos civis. O movimento começou a se organizar depois que, no dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, negra, resolveu sentar em um dos bancos da frente de um ônibus da companhia de transportes urbanos no estado do Alabama. As leis do estado reservavam aos brancos o direito a sentarem-se na frente, os negros deveriam sentar-se nos bancos traseiros. Rosa foi intimada a ir para trás e recusou o que causou a sua prisão e condenação. A partir desse fato o movimento negro explodiu numa série de protestos, inclusive com boicote à empresa de ônibus – o que quase a levou à falência – e também conseguiu a revogação da lei. Ainda assim o movimento ficou mais forte e passou a questionar e a expor as opressões que os negros sofriam. A história desse período é mais rica e complexa, mas queria apenas fazer um paralelo com o que ocorre no Brasil hoje.
Sempre que um grupo social se organiza e busca afirmar sua existência, denunciar as opressões, brigar por direitos negados e lutar por mudanças “alguém” se sente ofendido. Como disse um amigo “o gay é o novo negro”. E não foi diferente com os negros, com as mulheres – aliás, negros e mulheres também estão brigando pela diminuição dos preconceitos no Brasil- e nem está sendo com os gays. No caso esse “alguém” são os heterossexuais. Não todos os heterossexuais, assim como nem todos os brancos foram contra a luta dos negros. É um tipo específico de heterossexual: conservador, fundamentalista e machista e machista. Digo isso porque preconceituosos, geralmente, por incrível que pareça, vem com todos os preconceitos por tabela- como se fossem carros que saem com todos os opcionais da fábrica-, mas voltando para a questão gay é mais fácil de ilustrar porque estamos na moda, ou melhor, o movimento gay –e quero dizer com movimento gay todos aqueles que defendem o respeito à diferença e não só as ONGs ou a ABGLT- por conta de uma série de ações que tem conseguido colocar em pauta as reivindicações.
Só que isso vocês já estão cansados de saber. O que queria discutir no meio dessas informações todas que escrevi é o que é o tal do backlash. Bom, vamos ao dicionário. É uma palavra de origem inglesa que pode ser traduzida como recuo, reação ou revolta dependendo do contexto. Acho que no caso das lutas pelos direitos civis dos homossexuais no Brasil dá pra dizer que lidamos com a questão do recuo e da reação. Recuo no caso de alguns juízes fundamentalistas que tem recusado a união estável para alguns casais gays e reação no caso do, no mínimo, inusitado, Dia do Orgulho Hétero aprovado pelos vereadores da cidade de São Paulo.
No primeiro caso é um recuo pois foi uma conquista a decisão do STJ e alguns juízes inconformados não reconhecem essa luta e a conquista desse direito. No segundo, é uma reação. Reação ao incômodo que causa o encontro com o que é diferente. Lidar com o diferente sempre causa estranhamento porque desestabiliza as escolhas que fazemos e, por não saber lidar com isso, tentamos colocar esse incômodo no outro e buscar maneiras de reafirmar as nossas escolhas, o nosso modo de viver, os nossos desejos. Por isso, acho que, mais do que supostamente homossexuais enrustidos, pessoas homofóbicas são grandes narcisistas que não suportam que outras formas de existir, viver e desejar sejam tão diferentes das suas. Quer dizer, até suportam, desde que separadas, excluídas, guetificadas: à luz do dia , jamais!
Não é a toa que a homossexualidade é conhecida como “o amor que não ousa dizer o nome” referência à frase do escritor Oscar Wilde. É por essas e outras que, quando minorias organizam-se para afirmar a sua diferença, denunciar abusos e, mais importante, lutar para que a vida seja mais do que o que oferecem a elas – algo que vai além do reconhecimento de direitos civis pelo Estado – quem está confortável reage. Seja de formas mais cruéis e criminosas, como o assassinato, seja com ações risíveis como o Dia do Orgulho Hétero.
E tudo porque o outro, o “diferente” – ao não reafirmar e reproduzir o que tenho por certo, o que escolhi para mim – deixa-me desamparado e amedrontado. Às vezes, só às vezes, tenho vontade de dar um abraço em alguém assim e dizer: “tudo bem, eu também fico assustado com a falta de sentido da vida, mas é isso que deixa ela bonita”, mas depois passa porque lembro que posso xingado e apanhar caso resolva fazer isso com seres humanos assim. É triste.
O que vocês acham?
Artigo sobre o Dia do Orgulho Hétero: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI255579-15230,00.html
Videos: Nina Simone – “Four Women” / “Backlash Blues”: http://www.youtube.com/watch?v=65rz61qOwhc

 _______________________________________________________________________________

Bad romance

Por Kiko Riaze (17/03/10)
Dia desses estava me lembrando – com bastante auto-crítica – de uma grande paixão que eu tive aos 19 anos de idade. Foi uma paixão louca por um cara que desde a adolescência era bancado por um policial federal muito mais velho do que ele. O lance deles era tão forte que o tal policial mais velho vivia um casamento heterossexual, com filhos já crescidos, mas mantinha um apartamento só para o meu namorado (ou melhor, o dele!), onde podia viver livremente sua vida dupla. Além de tudo isso, o policial era super possessivo. Não preciso nem dizer que corri muitos riscos, pois em determinado momento ele descobriu que estava sendo traído e, inclusive, descobriu o meu nome. Disse para o namorado que me “daria uma lição” caso descobrisse quem eu era. Foi um período meio conturbado da minha vida que, olhando um pouco de perto, até daria gancho para um livro ou para um argumento de cinema. Um legítimo bad romance.
Sofri pra caramba! Estava perdidamente apaixonado e pensava que um dia teria o meu namorado só para mim. Mas é óbvio que ele jamais largaria sua vida de conforto para ficar comigo. Para ele era muito cômodo ser bancado por um homem mais velho e curtir um romance com um carinha mais novo por fora. Mas para mim era doloroso demais. Eu não via perspectiva nenhuma, tinha que viver um caso às escondidas, nos falávamos por códigos e havia finais de semana em que não podíamos nos ver, nem nos falar. Por várias vezes falamos em terminar a relação e era sempre muito ruim, pois eu estava realmente envolvido. Chorei muito, mas não conseguia me desvencilhar daquela armadilha. A verdade é que ele era um grande safado se aproveitando das situações e, o pior de tudo, é que eu sabia disso. E ainda gostava dele mesmo assim!
Depois de quase um ano de sofrimento ( e riscos), nós finalmente terminamos. Saí ileso. O pior passou, eu cresci, amadureci e, com o tempo, aprendi a selecionar as pessoas com quem eu me envolvia. Mas hoje penso que este tipo de situação não está intimamente ligada à imaturidade das paixões da juventude conforme eu pensava. Nada disso. Pessoas de qualquer idade estão expostas a este tipo de amor que nos prende e nos faz sofrer.
Quem nunca viveu um bad romance?
Não sei que bicho morde as pessoas a ponto de entregarem-se perdidamente a este tipo de paixão. Que feitiço é esse que as deixa cegas a ponto de não perceberem que vão quebrar a cara no final?
Assim como acontece com muitas mulheres, os gays também sofrem demais com este mal. O caso que eu vivi aos 19 anos é apenas um exemplo entre tantos que acontecem por aí. E qual a razão dessa dependência louca? A única resposta que eu consigo encontrar – se é que há alguma razão nos assuntos do coração – é a idealização exagerada que fazemos ao encontrar alguém. Parece que a maioria das pessoas que passa por isso já chega na relação imaginando ter encontrado o príncipe encantado, o par perfeito, e que aquela é a única pessoa do mundo capaz de completá-la e fazê-la feliz.
Mesmo quando percebem que o parceiro é cheio de defeitos, estas pessoas continuam firmes na sua ideologia, achando que tudo pode mudar e seguem obstinadas sem se importar consigo mesmas. São capazes de sofrer, de se humilhar, de aceitar traições, de permitirem-se ser enganadas apenas para não perder esta grande paixão. Casos de pura baixa auto-estima que parecem beirar à loucura. E isto é muito ruim e perigoso.
Não sei se existe algum método eficaz para acabar com esta dependência quase doentia em relação a estes amores complicados. Acho mais provável que cada pessoa encontre uma saída própria para se libertar em seu tempo. Ou não. De qualquer forma, vale sempre aquela dica típica de livros de auto-ajuda: é preciso aprender a gostar de si mesmo. É clichêzinho mas é verdade. E funciona. Quando nos damos conta disso percebemos o tempo que perdemos nesses romances ruins e quanto coisa boa ainda podemos aproveitar à nossa volta. Ou seja, galera, sai dessa!

_______________________________________________________________________________

Balada boa?

Por Kiko Riaze (06/03/09)
Ecstasy, GHB, Special K, Ice… Que gay urbano e moderno, frequentador de baladas “bacanas” nunca ouviu falar destas substâncias?
Parece que estas drogas sintéticas já fazem parte da cultura clubber das classes média e alta e vieram para ficar. Basta dar uma chegada no clubes mais conhecidos do eixo Rio-São Paulo para perceber que a droga rola solta. Ela pode até não passar na sua mão, mas não vai ser difícil perceber que ela está ali, mexendo (literalmente) com a cabeça da galera. Basta observar o povo enlouquecido fazendo coisas que jamais faria em seu estado normal, como se o mundo fosse acabar na manhã do dia seguinte. Ou melhor, na tarde do dia seguinte, pois de manhã o povo drogado sai da balada e emenda direto no after hours que vai até o meio dia…Só mesmo “no brilho” para aguentar esta maratona.
Tenho muitos amigos que fazem isso. Eu mesmo já experimentei em certa fase da minha vida, confesso. Não estou aqui para criticar o consumo de drogas. Sou partidário do filósofo britânico John S. Mill numa frase dele que eu costumo usar sempre nestas discussões: “Sobre si e sobre o próprio corpo o indivíduo é soberano”.
A minha reflexão aqui é unicamente sobre a idéia duvidosa de status que se formou sobre os grupos que utilizam estas drogas na noite gay. É como uma sociedade elitizada onde só são aceitos aqueles que compartilham deste “barato”. São feitas verdadeiras redes de contatos para se conseguir as drogas antes das baladas. A coisa é tão natural que às vezes o assunto se resume apenas a isso: “E aí? A onda tá batendo legal?”, “Esta bala é da boa?”
Mas é uma sociedade estranha, que se faz e se desfaz na pista de dança. Muitas vezes dá para perceber que não existe verdadeiramente uma amizade entre seus membros. Alguns inclusive dançam a noite toda abraçados ao cara que eles mal sabem o nome. Não há um papo legal, consistente e que possa trazer algum vínculo. A única afinidade é a droga. Nada mais.
Neste ponto, as boates do subúrbio – que os gays da zona sul adoram xoxar – dão um banho de espontaneidade e irreverência. Não há consumo de drogas e o povo se diverte a noite toda. E quem quiser, ainda pode sair de lá namorando… O que dificilmente acontece nas baladas do ecstasy, onde o povo faz carão a noite toda debaixo dos óculos escuros e no final da festa vai cada um para o seu canto, sozinho e fisicamente arrasado, com a camisa pendurada na cintura e a cueca da Calvin Klein aparecendo…Isto quando não volta para casa carregado pelos “amigos”.
Às vezes eu acho que isto é sintomático. O mundo individualista atual está levando as pessoas ao desespero e estas balinhas ajudam a pessoa esquecer dos problemas e extravasar. Mas no meu ponto de vista, a banalidade do consumo e o uso das drogas para integração social no mundo gay é o mais preocupante.
Quem não curte a droga, fica de fora do clubinho e nunca é chamado para as festas imperdíveis. Que chato né?
Isto ficou bem explícito para mim quando eu li uma crítica de um jornalista de um site de pegação famoso sobre o meu livro Depois de Sábado à Noite. Nesta crítica ele me tachou de conservador pelo fato de um dos personagens do livro abandonar o consumo constante de drogas e a partir daí o destino dele começar a mudar para melhor… Na idéia do jornalista, o personagem não precisaria desta mudança para encontrar a felicidade… Tenho lá minhas dúvidas, pois já vi casos graves acontecerem diante dos meus olhos por causa das balinhas e outras substâncias.
Mas enfim, todo mundo conhece as consequências, usa quem quer. Mas será tão difícil curtir uma balada sem fazer uso das drogas?
Sinceramente, eu prefiro uma cervejinha…

_______________________________________________________________________________

Banheirão: um estigma social no meio gay

Por Kiko Riaze (24/04/10)
Confidenciar fantasias e aventuras sexuais é sempre um tabu para muita gente. Mas quando o assunto é pegação no meio gay, o preconceito e a hipocrisia tomam proporções gigantescas. Até mesmo paradoxais. E estou falando de reações vindas de dentro da própria comunidade gay. Um bom exemplo disso é o famoso “banheirão”.
Quem nunca aproveitou uma ida a um banheiro público para dar uma olhadinha rápida no documento do cara ao lado? (Vale para banheiro de academia também). Existem teorias de que é um ato instintivo do homem, até mesmo dos héteros levados pela curiosidade masculina em relação ao “tamanho” do dote alheio. Mas ninguém fala que faz. Não que seja necessário ser dito, pois nem tudo é para ser falado mesmo. Mas também não vale criticar.
A questão do banheirão vai muito além da promiscuidade pura. Pegação em banheiros públicos faz parte do universo homossexual desde tempos remotos.
Imaginem só uma época em que os gays eram perseguidos e não tinham qualquer liberdade para exercer a sua sexualidade, muito mais do que é hoje em dia. Agora imaginem um lugar onde estes homens ávidos por sexo pudessem se encontrar, trocar olhares, exibirem seus pênis e tocarem-se longe dos olhos da sociedade repressora e pudessem fazer isso sem se comprometerem. O que aconteceria? O óbvio, né?
Para os gays do passado, os banheirões sempre funcionaram como uma espécie de estratégia de sobrevivência. Casal gay não entrava em motel. Mesmo se pudesse, faltava coragem. Então, era nos banheiros públicos que muitos homens (a grande parte casados e enrustidos) tinham liberdade para extravasar suas fantasias eróticas tão repreendidas, assim como becos escuros, parques, etc. A partir daí estabeleceu-se uma espécie de cultura dentro do universo erótico homossexual que perdura até os dias de hoje. Mesmo porque o preconceito contra o gay ainda é grande e muitos homens com dificuldade de se assumirem ainda têm que recorrer a esta “técnica” se quiserem ter algum momento de prazer.
Há ainda a questão do fetiche, do prazer do sexo anônimo e da safadeza pura mesmo. Entra tudo neste balaio de gatos. Muitos caras casados se realizam apenas dentro de um banheirão. Muitos jovens gays têm o primeiro contato com o sexo masculino e fazem sua iniciação sexual dentro de um banheiro público, de um vestiário da aula de educação física, etc…
Já vi muito gay torcer a boca quando ouve alguém contar que fez pegação no banheirão. Mas vamos que combinar que não dá para taxar quem faz isso de promíscuo, sem vergonha ou baixo nível, julgar, diminuir, porque é feito por gente de todos os níveis e classes sociais. Do banheirão da Central do Brasil até o banheiro limpíssimo de um shopping de luxo na Barra. E além do mais, não é muito diferente de ir a uma sauna, a um cinema pornô, entrar numa sala de bate papo gay da uol ou ter perfil no Disponível ou no Manhunt. Que atire a primeira pedra quem nunca lançou mão de uma dessas ferramentas para encontrar alguém!
Ah, isso é coisa de gay promíscuo, dizem alguns. Fator condicional. Experimentem colocar homens e mulheres héteros juntos dentro de um único banheiro para ver no que vai dar!
Mas vale uma lembrança: A prática de ato obsceno em lugar público é passível de pena de três meses a um ano de prisão. Artigo 233 do Código Penal.

_______________________________________________________________________________

Come Out

Por Kiko Riaze (11/10/11)
Um dia, aos 17 anos de idade, eu me olhei no espelho e perguntei: “Quem eu quero ser na vida: eu mesmo ou uma imagem que os outros fazem de mim?”
Ambas as alternativas me perturbaram. A primeira, porque eu sabia exatamente quem eu era, mas não tinha certeza do que aconteceria quando as pessoas ao meu redor soubessem. A segunda, porque eu tinha verdadeiro pavor da escuridão… Escuridão da alma, do esconderijo, do viver furtivo, pisando em ovos como um criminoso que guarda um segredo hediondo, vergonhoso.
Pesos postos na balança. A segunda alternativa pesou como um fardo doloroso, difícil de carregar. Eu não estava disposto a sustentá-lo. Seriam necessárias muitas artimanhas, mentiras, silêncios constrangedores, dissimulações. Um jogo de máscaras ocasionais que exigiriam uma habilidade enorme que eu não tinha, nem estava disposto a aprender… Seria trabalhoso demais para uma vida tão breve. Optei, então, pela primeira alternativa:
Assumi que sou gay.
E respirei aliviado. Olhei no espelho mais uma vez e senti uma sensação de leveza, de paz de espírito. A nuvem negra da dúvida se dissipando. Não haveria farsas na minha vida, eu decretei… Que se danem as máscaras! Que se dane aquela imagem que os outros gostariam de ver – ela não era real! E eu não permitiria que ela roubasse a minha essência ou que encobrisse com um véu de hipocrisia a minha existência.
A vida é única e passa rápido demais. Não há tempo para ensaios. Não se pode viver pela metade. Nem se pode viver pelos outros, ou conforme a vontade deles. É preciso ser pleno, permitir-se, deixar-se conhecer. Olhar nos olhos com autenticidade, sem medo, firmar-se…. Afirmar-se.
É bom demais ter a certeza de que as pessoas que estão ao seu redor amam você com todas as suas peculiaridades, do jeito que você é – isso chama-se verdade, transparência. Não consigo imaginar uma amizade onde certos aspectos precisam ficar ocultos para que ela possa se manter- isso é superficialidade, convencionalidade, enganação. Eu não quero enganar a mim mesmo, nem aos outros. Não quero o comodismo estranho de esconder-me atrás de uma máscara para ser aceito por alguém, pois eu não vejo motivo para vergonha. Conheço o meu valor. Amo e prezo muito a minha liberdade.
Quero ser lembrado pelo que eu sou e não pela sombra projetada de um ícone falso. Não estou aqui para fraudes. Estou aqui para viver e ser feliz e não troco isso por nada. Cada um é cada um.
E este sou eu.
post-scriptum: Há 23 anos, no dia 11 de outubro, é celebrado o National Coming Out Day, nos EUA (que para nós pode ser traduzido como Dia Nacional de Sair do Armário). Foi uma data criada por ativistas norte-americanos após uma marcha pelos direitos de gays e lésbicas ocorrida em Washington e que teve a participação de meio milhão de manifestantes. Aqui no Brasil, este dia vem sendo lembrado há três anos pelo Grupo Estruturação de Brasília que tenta positivamente incluir esta celebração no calendário da militância gay brasileira. O motivo, óbvio, é dar visibilidade ao tema e salientar a importância de assumir-se gay ou lésbica para o equilíbrio psicológico e social da população LGBT. Embora não seja prioritário na vida de muitos, não há dúvidas de que sair do armário traz muito mais benefícios do que viver uma vida às escondidas. Eu abraço totalmente esta ideia e reafirmo: vale a pena.

_______________________________________________________________________________

Desimportâncias

Por Kiko Riaze (01/02/11)

EU: Sabe, tem horas que eu fico muito decepcionado com a “comunidade” gay.

GAY GENÉRICO: Qual foi o bafo dessa vez?

EU: Ah… Semana passada eu postei um link no meu blog para as pessoas aderirem a um abaixo-assinado contra o “estupro corretivo” de lésbicas na África do Sul. Mas o povo nem se mobilizou. Você acredita que de 2.581 visitantes que entraram no meu blog durante a semana apenas 7 clicaram no link? *

GAY GENÉRICO: …

EU: Em contrapartida, um link que eu postei há algum tempo atrás para um ensaio fotográfico do ator pornô François Sagat recebeu em uma semana 171 cliques!* E olha que, naquela época, o meu blog nem recebia o número de visitantes diários que recebe hoje em dia.

GAY GENÉRICO: Ah, viado, quem é que vai querer acessar um link de um abaixo assinado contra estupro de sapatão na África? É muito melhor ver a bunda malhada do François Sagat!

EU: Mas como gay você não acha que é o nosso dever lutar contra a homofobia?

GAY GENÉRICO: Mas a África é tãoooo longe!

EU: Qual a diferença? O lugar não importa! Homofobia é homofobia em qualquer lugar! Recentemente aconteceram vários crimes de homofobia no Rio de Janeiro, em São Paulo…

GAY GENÉRICO: Ah, é? Mas não deve ter saído na capa do jornal, não, porque eu nem tô sabendo… Mas com certeza deviam ser bichas pintosas. Pode apostar! Devem ter feito alguma coisa para merecer a surra!

EU: Não acredito que eu ouvi isso! É por essas e outras que o PLC122 foi arquivado no Congresso Nacional! Somos muito desunidos!

GAY GENÉRICO: Hein?!? PLC o quê?

EU: PLC122, criatura! O Projeto de Lei que iria tornar a homofobia crime no Brasil. Não é possível que você nunca tenha ouvido falar… Nem parece que você vai todo ano à Parada Gay!

GAY GENÉRICO: Xiii… Você tá falando igual àqueles chatos de galocha da militância que ficam discursando na concentração em cima do trio elétrico… Pára, viado, ninguém presta atenção naquilo! O povo só vai à Parada pra ferver!

EU: Nossa, mas você deveria se interessar por estes assuntos também, sabia?

GAY GENÉRICO: Aff! Eu já tenho um monte de coisas com o que me preocupar! Tô cheio de contas pra pagar. Meu cartão de crédito tá estourado, comprei uma calça jeans carésima, um perfume maravilhoso da Pacco Rabanne e ainda tenho que arrumar dinheiro pra minha depilação, pros meus cremes, pros meus anabolizantes e pra uma sunga nova pra ir à pool party na semana que vem. Ah, e ainda tenho que arrumar aqué pra comprar bala, porque eu que não vou ficar careta na balada, né?

EU: … direitos gays, visibilidade, luta contra o preconceito, união civil gay…

GAY GENÉRICO: Tá boa, bonita? Casar pra quê com um monte de bofes no mundo pra fazer!?! Aliás, eu já te falei do carinha que eu conheci no Manhunt? Ele se mostrou na web cam pra mim ontem… Diz que é bissexual e casado com mulher, acredita? E morra de inveja: a mala dele é tudo! 22cm!

EU: Caramba, mas você não dá a mínima para assuntos mais relevantes?

GAY GENÉRICO: Claro que sim!… Você já soube que a Kate Perry e a Rihanna vem pro Rock In Rio? Tô indo agooora comprar meu ingresso!

* Os dados , infelizmente, são reais e foram extraídos das estatísticas do painel de controle deste blog.

_______________________________________________________________________________

E eu gosto de meninos e meninas

Por Giselle Jacques – colaboradora do blog (25/05/11)
Estava eu conversando dia desses sobre bissexualidade e o assunto me chamou a atenção, dadas as conjunturas sociais comumente aceitas. É, aceitas! Parece incrível, mas a bissexualidade é menos rejeitada socialmente do que a homossexualidade propriamente dita.
Segundo a Wikipédia, bissexual é aquele indivíduo que sente “atração física e emocional por pessoas tanto do mesmo sexo quanto do oposto, com níveis variantes de interesse por cada um, e à identidade correspondente a esta orientação sexual”. Ou seja, meninos e meninas que gosta de meninas e meninos. Confere?
Todavia, em termos “morais”, mesmo tendo atração pelo mesmo sexo em boa porcentagem das vezes, uma pessoa bissexual não é vista como uma aberração tão assustadora, ou tão diabólica, quanto o homossexual. E isso é histórico. Explico: Era comum aos senhores de terras manterem suas esposas e suas amantes, mas também seus “escravos de alcova” para diversão. Ninguém reclamava. Era comum gregos e romanos, casados e pais, terem efebos sob sua proteção, ou seja, meninos a quem educavam e com quem mantinham relações homoafetivas. No oriente médio, grandes marajás (ou algo do tipo) mantinham mulheres e homens em seus haréns. Ninguém os chamava de veados. Essa “vista grossa” ainda perdura, de certa maneira. Uma espécie de concessão velada a práticas ditas amorais.
No que diz respeito a mulheres, a hipocrisia social vai bem mais longe. Alguns autointitulados especialistas até afirmam que todas as mulheres tem um quê homoerótico e que, assim, a bissexualidade feminina é latente. Menina beijar menina pode, em festas e ambientes socialmente favoráveis. Os meninos até gostam, não é verdade? Numa transa a três, é permitido e incentivado que as meninas se toquem. Afinal, é um joguinho inofensivo, e elas acabam mesmo transando com o menino.
Até pra sair do armário as pessoas ainda usam a tática de “Mãe, pai, eu sou bi”. A tendência pelos dois gêneros é um atenuante ao “Mãe, pai, eu sou gay”. Cansamos de ver garotos que tentam e tentam se relacionar com garotas, ou garotas que se esforçam por gostar de garotos. Não seria isso uma autorrepressão? Não seria quase “homofobizar-se”? É mesmo necessário se passar por bissexual? Qual o limite verdadeiro entre o bi e o homo? Como explicar a um/uma adolescente que ele/ela pode, sim, gostar de ambos os sexos?
O próprio Relatório Kinsey classificou o total da população americana entre 60 e 70% de bissexuais, pelos parâmetros da pesquisa da época. Na minha opinião, é um tema muito pouco falado nos meios de comunicação de que dispomos. Eu chamaria de tabu o assunto bissexualidade. Esse comportamento, esses quereres, com certeza dão um nó na mente de qualquer um. Não é um desvio comportamental, não é ser hétero, não é ser gay.
Então, o que seria? Alguém responde essa?

_______________________________________________________________________________

Ele é heterossexual e gosta de ser passivo. Isso pode?

Por Kiko Riaze (27/05/10)
Toda vez que o ator pornô Alexandre Senna aparece na mídia falando que é hétero a galera cai de pau (!) em cima do moço. Já aconteceu no Superpop da Rede TV, em vários sites gays da net e ontem foi a vez do SBT Repórter que tratou da indústria do sexo.
Alexandre Senna, para quem não conhece, é um ex-pastor evangélico da Igreja Universal, casado, com dois filhos, que resolveu entrar para o mundo pornô gay para ganhar uma graninha a mais e já tem mais de 500 filmes no currículo. Detalhe: em todos eles Alexandre Senna faz o papel de passivo.
Na entrevista ao SBT ele voltou a afirmar sua heterossexualidade e contou a história de sempre, de que a mulher só deixou ele fazer filme pornô com a condição de que ele atuasse apenas em filmes gays, pois ela sentiria ciúmes se o visse transando com outras mulheres. E disse também que as pessoas que não acreditam que ele seja heterossexual têm a mente fechada.
Alexandre Senna já vez várias cenas de dupla penetração anal e já realizou a conhecida façanha de sentar num cone de trânsito até a metade (!!!). Ele confessa que gosta de ser passivo e que não faz o papel de ativo nos filmes porque tem um dote de apenas 13cm, considerado pequeno para a indústria pornô. Além disso diz que as pessoas têm este fetiche de ver um homem superbombado no papel de passivo.
Aí retorna-se à grande questão: Um homem que transa com outro homem (por dinheiro ou ocasião) ainda pode ser considerado hétero? Bissexual? Ou gay mal resolvido?
Eu, particularmente, acho que apenas a prática sexual não define muita coisa. O fato de alguém ser ou não homossexual vai muito além disso. Tem algo a ver com envolvimento sentimental, com os desejos e com identidade mesmo, mas tudo isto junto. Já tinha dado minha opinião sobre isso no artigo Héteros que fazem ou gays encubados? há uns meses atrás. Não vou ser repetitivo, dêem uma lida no artigo deste link. Vale a pena ler os comentários também.
Mas vamos ampliar um pouco mais a questão: se existe um Ponto G masculino, muita gente considera que este ponto está localizado na próstata. Só pra ilustrar (do site A Vida Secreta): “A próstata encontra-se aconchegada à bexiga e o reto, faz parte do sistema reprodutor masculino e tem a função de produzir e armazenar o líquido seminal, ou seja, a porra, para os íntimos. Uma próstata humana saudável possui o tamanho aproximado de uma noz, envolve a uretra logo abaixo da bexiga e pode ser sentida através do toque retal. Toque, aliás, imprescindível em exames preventivos para a investigação de possíveis tumores (câncer) na próstata. Tão evitado por puro preconceito.”
Mas não tem jeito, a estimulação na próstata dá tesão no homem sim.
Muitos héteros nem pensam em experimentar por preconceito. Muitas mulheres também têm este bloqueio e se negam a estimular o ânus do parceiro. Mas tem muitos homens héteros que curtem o tal chamado “fio terra” com suas mulheres numa boa e têm uma vida sexual super satisfatória por causa disso. Ah, sem falar na tal “inversão” que muitos casais héteros praticam com direito a consolo e outros brinquedinhos. Eu penso que não dá pra considerar que estes homens sejam menos héteros por causa disso.
Agora, quanto ao tal ator pornô, se ele próprio se considera hétero, quem pode dizer que não?

_______________________________________________________________________________

Ele não está sozinho, mas nós também não

Por Maycon Benedito – colaborador (31/03/11)
“Os juízes da normalidade estão presentes em todos os lugares. Nós vivemos na sociedade do professor-juiz, do médico-juiz, do educador-juiz, do ‘trabalhador social’-juiz.”
Michel Foucault

A primeira coisa que senti após saber da declaração do deputado no CQC foi revolta. Revolta, mas não surpresa. Bolsonaro é mais do que apenas uma representação de valores conservadores. Ele é a própria incorporação desses valores. Ele não é burro, nem ignorante, nem falta a ele a educação formal de quem estudou em “boas escolas”. Ele vê, sente, percebe e se posiciona em relação a realidade daquela forma. Uma forma de colocar-se no mundo. É um modo de vida .E se ele é assim, muitas outras pessoas também são. E foram essas pessoas que votaram nele, que o escolheram para defender esses valores.
Esse homem apenas empresta seu rosto, sua voz, seus gestos, suas palavras para esses valores e às pessoas que os vivenciam. Essas mesmas pessoas terão filhos, os educarão e darão continuidade a essa forma de olhar o mundo – é claro que alguns desses filhos conseguirão produzir outras maneiras de viver suas vidas, afinal os seres humanos não são meros depósitos de idéias.
Acho que todas as medidas de repúdio ao que ele expressou devem ser tomadas, mas ainda que ocorra alguma punição não devemos esquecer que há pessoas que votaram nele e que votarão novamente. E elas têm esse direito. Tem direito de não aceitarem que existam valores diferentes dos delas, mas tem que aprender que tais valores são tão legítimos quanto. Não podem se considerar no direito de dizer como alguém deve viver suas vidas. Há limites entre discordar e discriminar.
E acho que aí que está a questão. Ele pode ser enquadrado na lei de discriminação racial porque o racismo é crime e pode levar a prisão. E é disso que ele está com medo, de ser punido por essa lei. No caso da homofobia tal lei não existe e como ele mesmo disse está “se lixando” para os homossexuais. Acho que nesse momento, seria importante que todos – homens, mulheres, gays, héteros, negros, brancos – que se sentiram humilhados, revoltados ou incomodados com a fala do deputado se posicionem e mostrem que há pessoas que pensam de outra maneira, que vivem de outra maneira, que olham e sentem o mundo de outra maneira.
E completando o trecho de Foucault desta vez encontramos o deputado-juiz.

_______________________________________________________________________________

Ensino religioso no Brasil estimula homofobia, diz pesquisa

Por Kiko Riaze (24/06/10)
“O ensino religioso no Ensino Fundamental brasileiro estimula a homofobia e a intolerância. Foi isso o que concluiu uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília e presente no livro “Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil”, lançado nesta semana na Capital Federal. De acordo com a pesquisa, a discriminação contra homossexuais é uma das mais presentes. Foram analisados 25 livros entre os mais usados para Ensino Religioso pelas escolas brasileiras, entre eles títulos das editoras Vida, Moderna, Edições Loyola, Dimensão, Vozes, Saraiva e Paulus Paulinas.
Frequentemente as pessoas homoafetivas são descritas como portadoras de “desvios morais”, “doenças físicas ou psicológicas” e “conflitos profundos”. Um dos títulos chega a afirmar que “o homossexualismo não se revela natural”, enquanto outro apresenta a alunos com idades entre 11 e 15 anos uma bandeira do arco-íris e questiona: “Se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.
Para Débora Diniz, antropóloga e uma das reponsáveis pela pesquisa, “o estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”. Já Tatiana Lionço, psicóloga que também participou da análise dos títulos, o grande problema é o fato de o Estado não monitorar o conteúdo dos livros religiosos usados pelas escolas do Brasil. “Não há qualquer tipo de controle. O resultado é a má formação dos alunos”, considera. Ainda segundo Tatiana, o modelo do ensino religioso não costumar levar em conta a laicidade do Estado. “Se o Estado deveria ser laico, por que ensinar religião nas escolas? Se a religião for tratada na sala de aula, tem de ser de forma responsável e diversificada”, afirma a profissional.” Irving Alves (23/06/10) – Postado originalmente no site Mix Brasil

Meus comentários:
Está aí um assunto que deve ser amplamente discutido na sociedade brasileira. Quando fiquei sabendo há alguns anos atrás que as escolas públicas adotariam o ensino religioso na sua grade didática tomei um grande susto e vi nosso país sofrendo um retrocesso de centenas de anos. É óbvio que o ensino religioso (leia-se ensino cristão, já que as religiões não-cristãs ficaram de fora) foi uma manobra dos grupos religiosos predominantes no país para enxertarem as suas convicções nas mentes das crianças, como uma espécie de controle de massa e lavagem cerebral. Uma artimanha inteligente para burlar a laicidade do Estado e passar uma rasteira na liberdade e pluralidade religiosa do Brasil.
Lembro-me com tristeza de uma reportagem da revista Época, da qual eu era assinante, que falava do preconceito que os alunos adeptos da Umbanda e do Candomblé vinham sofrendo nas salas de aula. Muitos eram praticamente intimados pelos seus professores cristãos a se converterem e iam para a igreja a fim de não sentirem-se fora do grupo, mas acabavam retornando às suas religiões e abandonando as salas de aula para não sofrerem mais constrangimento. Uma menina que entrou na classe com guias de santo no pescoço foi humilhada por uma professora evangélica e chamada de filha do demônio. Revoltante demais.
Agora, volto a me revoltar com esta matéria divulgada no Mix Brasil. É o tipo de assunto que não deve passar despercebido. Noções de ética, respeito e direitos não devem estar vinculadas a nenhuma religião. Conceitos religiosos não são fundamentais para a formação escolar e cabe às famílias decidirem se querem ou não transmiti-los aos filhos, quais e de que maneira. O Estado brasileiro é laico. O que falta para isso se tornar efetivo?

_______________________________________________________________________________

Eu tinha medo das bichas loucas

Por Kiko Riaze (03/10/10)
Lembro bem da minha infância na Ilha de Paquetá, um lugarzinho provinciano e pitoresco isolado nos cafundós da Baía de Guanabara, onde o único meio para se chegar é enfrentando 1 hora de viagem numa barca velha e morrinhenta. Terra de pescadores rudes e machistas, macumbeiros e beatas fofoqueiras que vão à missa de domingo levantando poeira no chão de terra batida, Paquetá não é lugar nada fácil para se descobrir a homossexualidade. Naquela época (não creio que tenha mudado muito, pois o tempo parece não passar na ilha), ser gay era sinônimo de ser bicha louca.
Lembro de várias delas: famosas, apontadas a dedo, louquíssimas. Lembro também de vários episódios as envolvendo, como certa vez em que estávamos todos conversando no portão de casa (passatempo comum num lugar onde reina o tédio) e uma delas passou voltando da praia. Quando viu o grupo de pessoas reunidas, ela enfiou a sunga na bunda e começou a andar rebolando, aos gritos: “É assim que eu vou desfilar na Marquês de ‘Sapucaralho’ no Carnaval!” . Foi uma festa! Entre gritos e gargalhadas, a bicha teve seu minuto de fama. Uma diva!
Eu ainda era um menino, e a figura das bichas loucas ao mesmo tempo em que me divertia me causava muito medo. Era como se eu visse nelas aquilo que eu tinha dentro de mim, ainda meio indefinido, mas ao mesmo tempo me repelia, pois eu não me identificava com elas, daquele jeito, afetadas e loucas. Além do mais, os olhares delas sobre mim pareciam desvendar o meu gosto por homens e isso me assustava muito. Tinha pavor de que uma delas espalhasse pela ilha que eu tinha tendências homossexuais.
Sem contar que toda afetação delas me confundia. Eu ficava me perguntando: se ser gay é ser como elas, o que eu sou afinal?
Só fui encontrar a minha tribo quando minha família se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, na minha adolescência. Aqui no Rio eu percebi que se moldava uma outra classe de gays, mais másculos, mais discretos, mais… héteros! Portanto, muito mais tolerados pela sociedade – e pelo próprio meio gay – do que as bichas loucas.
As loucas parecem ter vivido em uma época de tanta repressão que era necessário se firmar por meio da rebeldia, do contraste, da subversão. Era preciso afrontar, chocar para se tornar visível. Hoje, com toda a visibilidade do movimento gay, elas parecem ter perdido a sua função. Para muitos da nova geração de gays, as bichas loucas tornaram-se uma vergonha, fazem parte de um passado que eles fazem questão de enterrar.
Às vezes eu tento me convencer de que a liberdade que os gays-bofinhos de hoje vivenciam se deve muito às bichas loucas que deram a cara a tapas no passado… Mas não estou bem certo disso. Analisando por outro ângulo, vejo que, na verdade, as bichas loucas foram um grande fracasso. Toda rebeldia pode não ter valido de nada quando, no final, a última alternativa dos gays foi se adaptar ao padrão heterossexual da sociedade para conseguir algum respeito.
As bichas loucas parecem estar entrando em extinção. Mas será por pouco tempo. Antes que a normatização hétero torne tudo monótono e sem brilho, as bichas loucas vão ressurgir, como aquelas da minha infância que desmunhecavam, rebolavam e se enchiam de plumas e paetês no Carnaval para desfilar pelas ruas de terra e paralelepípedos da Ilha de Paquetá, felizes da vida. Pode apostar. E quando isto acontecer, ao invés de temê-las, com certeza, eu vou aplaudi-las.

_______________________________________________________________________________

E você, já saiu do armário hoje?

Por Kiko Riaze (10/10/09)
Há 21 anos a comunidade LGBT dos EUA comemora em 11 de outubro o National Coming Out Day, ou em português, o Dia de Sair do Armário. A data foi criada por ativistas americanos com a finalidade de lançar luz sobre a questão homossexual de assumir-se ou não e gerar discussões a respeito dos assuntos relacionados às causas gays, assim como promover a consciência de que as pessoas LGBT podem viver honesta e abertamente com suas famílias.
Eu me lembro bem da época em que eu ainda estava no armário. Era adolescente e tinha o pensamento de que minha sexualidade não era da conta de ninguém, que o que eu fazia entre 4 paredes só dizia respeito a mim e que só traria complicações para minha vida se um dia viesse contar para todo mundo que eu era gay.
Sempre ouvia histórias absurdas de filhos expulsos de casa somente porque assumiram-se para suas famílias e tinha muito medo de que isso pudesse acontecer comigo. Tinha medo do que as pessoas iam pensar de mim e de ser apontado na rua pelos vizinhos. Tinha medo de “sujar” a imagem que eu tinha do filho perfeito e do genro que toda sogra queria ter. Tinha medo de que meus amigos se afastassem de mim.
Por outro lado, eu não vivia bem com o fato de viver uma vida dupla: a vida que os outros queriam ver e a vida que realmente me pertencia. Sentia que eu estava vivendo uma grande farsa e isto não me fazia nada bem.
Lembro bem de quando descobri a extinta “rua da lama” em Botafogo, bairro onde eu morava na zona sul do Rio. Era chamada desta forma um tanto degradante pelo fato de ser o point dos homossexuais na época. A rua estava sempre lotada de gays, lésbicas, travestis, etc e possuía uma grande variedade de bares e boates gays, que ficavam um do lado do outro – quem se lembra da Blade Runner ou da LochNess?
Foi a época do meu deslumbre. Foi quando eu descobri que não estava só no mundo e comecei a conhecer intensamente a vida gay do Rio de Janeiro e a me identificar com ela. Saía de casa à noite e ia caminhando pela Praia de Botafogo em direção à Rua São Clemente, num trajeto que se repetia religiosamente todos os finais de semana. Para os meus pais, eu dizia que ia para lugares héteros, como o Scala ou a Lapa. O que eu não sabia era que meu pai já estava ficando desconfiado e ficava me vigiando pela janela do apartamento…Ele sabia que eu não ia para os lugares que eu dizia ir, só não imaginava que eu estava indo para lugares gays. Até o dia em que ele ouviu falar da tal “rua da lama” e começou a juntar as peças do quebra-cabeça.
Era óbvio que havia algo de diferente em mim. Eu nunca aparecia com namoradas, não falava de coisas que os rapazes costumam falar como mulheres e futebol e não possuía muitos amigos. Apenas um, do qual eu nunca desgrudava e que na verdade, era meu namorado.
Eram tantas as evidências que meu pai começou a perturbar a minha mãe com suas desconfianças, mas ela sempre me defendia. Isso porque, certamente, ela já sabia. Mãe sempre sabe. Engana-se quem pensa o contrário. Até que um dia ela me chamou para conversar.
Lembro do friozinho na minha barriga e do suor gélido nas minhas mãos. Pelo teor da conversa e o clima que estava no ar eu já sabia exatamente onde ela queria chegar. E não me enganei. Ela foi falando tudo que tinha para falar, das minhas atitudes, da minha relação suspeita com meu “amigo”, das desconfianças do meu pai, etc, etc…
Ela estava séria, mas não parecia brava. Mesmo assim eu não conseguia encará-la. Tentava a todo custo desviar o meu olhar e fiquei mudo. Apenas ouvia. Quando veio a pergunta que eu tanto temia, não tive coragem de negar e assumi. Depois de eu ter revelado tudo o que o coração de mãe já tinha certeza, ela segurou no meu queixo,olhou fundo nos meus olhos e disse:
“Você sabe que eu te amo. Sempre te amei. Mas agora que eu sei que você é gay, eu vou te amar mais ainda”.
Estas foram as palavras da minha mãe. Era tudo o que eu precisava ouvir para me sentir seguro em relação à minha sexualidade. Se minha mãe me apoiava, não havia mais ninguém no mundo que pudesse me preocupar. Quanto ao meu pai, aos poucos ele foi se acostumando com a idéia e não houve nada que abalasse a nossa paz.
Claro que nem todas as mães são iguais, nem todas as famílias são iguais e cada um sabe a melhor maneira de contar para sua família sobre sua orientação sexual. No meu caso tudo fluiu de forma muito natural, num processo que eu considero como o ideal. Bom seria se todas as famílias fossem assim. Muito sofrimento seria poupado e todos os problemas estariam resolvidos.
Hoje eu vivo de forma mais plena, mais honesta comigo mesmo e com as pessoas ao meu redor. Construo amizades mais sinceras, livre daquelas preocupações de esconder minha identidade e acredito ajudar a quebrar os estereótipos e mitos negativos acerca dos homossexuais. Passei a me interessar mais pelas causas LGBT e tenho plena consciência de que preciso lutar pelos meus direitos. Hoje eu sou imensamente mais feliz.
Isso não significa que você deva se assumir em todos os lugares ou em qualquer ocasião. Só você sabe como, onde e quando deve sair do armário, baseado naquilo que você pensa ser o melhor. A orientação sexual ou identidade de gênero são peças importantes em sua vida, mas não é apenas isso que define você.
O importante antes de se assumir para os outros, é sem dúvida alguma, assumir-se para você mesmo e se conhecer.
Hoje eu já não penso da forma que eu pensava quando estava no armário e sempre que alguém me pergunta se deve se assumir, eu sempre digo SIM.
E vocês, já saíram do armário?

_______________________________________________________________________________

Héteros que “fazem” ou gays encubados?

Por Kiko Riaze (22/08/09)
Nós, seres humanos, temos uma tendência aristotélica de classificar tudo que está ao nosso redor, nomear e guardar em gavetinhas etiquetadas, como um grande arquivo de divisões rígidas e inflexíveis.
Fazemos isso com quase tudo que existe de concreto e abstrato na Natureza. Com a sexualidade é a mesma coisa. Classificamos as identidades sexuais em Heterossexuais, Homossexuais, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e por aí vai. De tempos em tempos a sigla do movimento vai crescendo. De GLS já estamos em LGBT. Já vi grupos usarem LGBTTTS. Em Portugal já houve referências ocasionais a LGBTQI, que incluiu Queers e Intersexuais.
Na década de 90 surgiu outra etiqueta para as gavetinhas da mente humana: a expressão HSH, que quer dizer Homens que fazem Sexo com Homens. Foi uma expressão criada por médicos que estudavam DST’s e AIDS a fim de analisar a propagação das doenças entre homens que transavam com outros homens, independente se eles eram gays ou não.
Ora, daí surge o questionamento: se um homem faz sexo com outro homem, pela lógica, ele não seria gay?
Muitos defendem que não. Homens heterossexuais podem transar com outros homens sem se auto-afirmarem como gays. Muitos, inclusive, têm verdadeira aversão ao mundo gay e sua cultura. São homofóbicos e jamais se identificariam como homossexuais ou até mesmo como bissexuais. Neste grupo, além dos homens que ocasionalmente viram a casaca para o outro “time”, também estão incluídos os garotos de programa e os homens que transam com travestis. É o pulo pra fora da “gavetinha” convencional.
Segundo estes héteros, o que os motiva a transarem com outros homens – quando não há o envolvimento por motivos financeiros – é simplesmente o tesão do momento, a curiosidade, a vontade de experimentar algo diferente. Neste aspecto, a questão sentimental fica sempre de lado. Envolver-se emocionalmente com outro homem é algo repugnante para eles. “É coisa de viado!”. Eles apenas transam. Dando ou comendo, eles continuam se considerando homens com H maiúsculo. Namoram e casam-se com mulheres, têm filhos, constituem família e são felizes assim.
Por exemplo: nas prisões, como os homens héteros são privados de sexo, eles mantém relações sexuais com outros homens, gays ou não, para aliviar a tensão provocada pela privação de sexo. Estas relações se caracterizam somente pelo sexo na intenção de se obter o ogasmo. Não existe um envolvimento emocional nestas relações. Quando estes homens são libertados, fazem exclusivamente sexo hétero.
É algo difícil mesmo de compreender. Guardar estes homens na gaveta dos bissexuais seria a maneira mais coerente e mais fácil de classificá-los, além de generalista e estereotipada. Mas eles também parecem repudiar este rótulo. Preferem ser chamados de liberais, de comedores (embora a posição nem sempre seja essa), pois assumir-se bissexual seria assumir também o seu lado homossexual e isto eles negam até a morte.
Esta negação baseada em preconceito acaba gerando aquela velha discussão de que estes héteros que transam com homens nada mais são do que gays encubados e mal-resolvidos, o que também faz muito sentido.
Mas afinal o que realmente define a orientação sexual do homem: o sexo propriamente dito ou a identidade de cada um, com seus aspectos sentimentais, psicológicos e culturais?
Pode um homem transar com outro homem e continuar sendo classificado como hétero? Ou seria este homem um homossexual mal resolvido?
Em que gaveta você o guardaria?

_______________________________________________________________________________

História da Carochinha

Por Kiko Riaze (08/12/10)
Um dia me venderam um livro que falava sobre um reino de gente calorosa e solidária, com liberdade de escolhas e de expressão. Um extenso país de muitas raças, de cultura rica e diversificada, onde qualquer um podia ser o que quisesse ser, pois as individualidades eram respeitadas e onde homens e mulheres eram totalmente livres para decidir as suas vidas, escolher seus amores e sua religião. Lá, deuses de todas as formas e homens de todas as cores conviviam muito bem. Era um lugar de gente guerreira, simpática e hospitaleira, de deslumbrantes belezas naturais, de lindas mulheres seminuas e de homens atléticos caminhando na beira do mar, de sensualidade exalante, de cerveja gelada, futebol e carnaval. Um reino de promessas. Paradisíaco. Promissor.
Comprei o livro pela capa, certo de que não poderia me enganar… Mas me enganei. À medida que eu fui virando as páginas do livro, fui percebendo que naquele reino de contos de fadas tropical, nada era o que parecia ser. Tudo era fake. A ordem e o progresso eram conversa pra boi dormir. Aquela gente que se dizia guerreira só sabia reclamar, mas não era capaz de agir. Lamentava a fome, a miséria e a corrupção, mas sempre acabava levando a mesma corja ao poder. Analfabetos, demagogos e ladrões. Até um palhaço o povo elegeu – talvez seja ele a sua melhor representação.
Aquele povo que se dizia solidário era o mesmo que fingia dormir para não ceder lugar quando uma gestante ou um idoso subia no ônibus ou no trem, que furava filas, que falsificava documentos e dava um jeitinho para tudo. Sujava as ruas e queimava árvores ao invés de preservar suas belezas naturais.
Aquele povo que se vangloriava de sua miscigenação e de sua diversidade cultural, tratava negros, índios e nordestinos como uma casta inferior. Orgulhava-se de sua liberdade religiosa, mas torcia a boca para tudo que não fosse cristão.
Os homens calientes daquele reino não passavam de machistas que viam o sexo como uma forma de dominação, mas mentiam nas pesquisas e não eram tão sexuais assim não. Em seus casamentos, faziam sexo com pouca frequência, a maioria por obrigação e ainda eram preguiçosos, egoístas e muito pouco criativos em cima da cama. E as mulheres, tão modernas e livres, que andavam de bunda de fora na praia e no carnaval, na verdade eram submissas e caretas e nem aproveitavam todas as possíveis posições sexuais.
E tinha mais:
Segundo uma pesquisa, 82% daquele povo rejeitava a descriminalização do aborto.
60% daquele povo rejeitava a união civil entre homossexuais.
O menor índice de aceitação à união entre os gays era identificado entre os cristãos: apenas 19% dos evangélicos aceitava a união homossexual, contra 37% dos católicos praticantes e 41% dos católicos não praticantes.
Com pessoas de outras religiões, a aceitação era maior: chegava a 59%.
Ainda assim, era prova de que aquele povo sensual, de atitudes e pensamentos libertários, na realidade, era beato e conservador. O livro de fantasias que eu comprei era pura história da carochinha. Tudo ali era falso. Propaganda enganosa das piores.
Moral da história: não se deve julgar um livro pela capa. Ou nem tudo o que parece, é.
Quero meu dinheiro de volta…

_______________________________________________________________________________

HIV positivo x negativo: uma união possível

Por Kiko Riaze (07/05/10)
Rodrigo (nome fictício) é um grande amigo meu. Aos 19 anos de idade, ele contraiu HIV numa transa com um amigo da academia de musculação. O rapaz não sabia que era soropositivo. A descoberta veio após um exame realizado por causa de uma inflamação na garganta de Rodrigo que nunca sarava. Foi uma barra. Hoje, aos 26 anos de idade, tomando seus antirretrovirais, Rodrigo leva uma vida normal, tem planos para o futuro, concluiu sua faculdade, tem um bom emprego e é um jovem bastante bonito e atraente, por sinal. Há algum tempo atrás, Rodrigo conheceu um outro rapaz e se apaixonou. Já estavam namorando firme há três meses, quando Rodrigo veio me contar que ainda não tinha revelado que era soropositivo. Tinha medo de perder o namorado. Tinha medo da rejeição.
Imagino que, dentre muitos conflitos que permeiam a vida de um soropositivo, este seja um dos mais dolorosos. Amar e ser amado é uma busca que pertence a praticamente todas as pessoas deste planeta. Ser rejeitado por causa do vírus HIV mexe profundamente com a auto-estima do portador e muitas vezes o lança para uma vida de reclusão, de angústias e depressão. Um abismo perigoso que pode trazer muito mais dor do que a própria condição de se conviver com o vírus.
Rodrigo tinha verdadeiro pavor deste quadro. Mas sempre que conversávamos eu o estimulava a contar tudo para o namorado. Por mais difícil que fosse esta decisão, nada superaria a verdade. Questão de ética. O namorado precisava saber. E quanto mais Rodrigo protelava com esta revelação, mais pesado ia se tornando este fardo, pois além da problemática da doença, o namorado ainda poderia se sentir traído por não ter sido avisado desde o início. E decidir se deveria ou não relacionar-se com uma pessoa soropositiva era uma decisão que pertencia só a ele. Rodrigo não deveria privá-lo disto.
Depois de muita conversa e medos expostos, Rodrigo tomou coragem e, finalmente, contou tudo para o namorado. Foi um choque, obviamente. Ambos choraram muito. Porém, após muitas lágrimas derramadas, veio a iluminação. O namorado resolveu enfrentar todos os obstáculos que viriam e decidiu continuar ao lado de Rodrigo.
Não é tão simples, realmente. Conviver com um soropositivo em tratamento tem suas dificuldades. O vírus, de alguma forma, sempre está presente na relação, seja na hora do sexo, seja na hora das recaídas da doença. Mas não é impossível. Nada que o amor e a força de vontade não vençam. E um pouquinho de informação também.
Estou contando esta história porque hoje à tarde eu falei com Rodrigo por telefone. Muito satisfeito com a vida, ele me convidou para conhecer o seu apê recém reformado. O mesmo apê que ele e o namorado compraram juntos: mês que vem eles estarão completando 2 anos de união. Estão casados e muito felizes.
Como desde o início eu fui um entusiasta desta relação, acabo compartilhando também da felicidade deles. Por isso, achei legal tocar no assunto por ser um bom exemplo de que sorodiscordantes podem se relacionar sem problemas, basta que tenham cuidado e responsabilidade. E também para que os soropositivos deixem de lado este medo da rejeição, pois se há amor no relacionamento, haverá apoio e compreensão. E se não houver é porque aquela ainda não é a pessoa certa para se relacionar. O que não vale é cair em depressão ou tentar se afastar dos outros por vergonha. O mais importante é sentir-se bem consigo mesmo e ter em mente que a verdade deve prevalecer. Sempre.

_______________________________________________________________________________

Lições simples de um relacionamento aberto

Por Kiko Riaze (29/11/09)
Ainda me lembro bem da primeira vez em que ouvi falar de “relacionamento aberto”. Foi numa festa de confraternização de fim de ano, onde estavam presentes André e Eduardo, um casal de amigos gays que mantinham uma relação estável há mais de cinco anos. Depois de algumas rodadas de chopp, André me confidenciou em tom de segredo que andava saindo com outros caras. Diante da minha expressão de espanto ele sorriu e disse que não se tratava de traição, pois Eduardo sabia bem de todas as suas aventuras. Com a maior tranqüilidade do mundo, ele também me contou que Eduardo fazia o mesmo.
- Não temos nada a esconder um do outro – disse ele – Resolvemos abrir a nossa relação.
Fiquei transtornado e confuso, tentando digerir aquelas insólitas informações até que, no fim, André resolveu ser o mais claro possível e pacientemente me explicou que o casamento deles continuava como sempre havia sido, porém com um ingrediente a mais: a ambos era permitido ter relações com outros parceiros, contanto que fossem apenas sexuais e nunca emocionais.
Fiquei chocado. A primeira coisa que me veio à cabeça naquela hora foi julgá-los como sem-vergonhas, promíscuos, loucos e coisas afins. Como o ciumento inveterado que eu era naquela época não conseguia compreender de forma alguma como um casal se submetia a uma situação daquelas ao invés de simplesmente se separar. Não fazia sentido. Perguntei a André se eles faziam aquilo como uma forma desesperada de salvar a relação desgastada e André foi firme ao dizer que não. Segundo ele, a relação havia sido aberta justamente porque eles se amavam demais e por isso, queriam proporcionar um ao outro uma vida plena, liberta, sem a hipocrisia e as amarras muitas vezes frustrantes das relações comuns.
Aquilo me fez refletir. Ao longo dos anos, enquanto assistia namoros de amigos (e os meus também) se desmancharem em jogos de mentiras, traições e decepções, eu via que a relação de André e Eduardo continuava firme e inabalável. A partir daí, a quem antes eu chamava de loucos, passei a chamar de sábios. Deixei de lado meus julgamentos e preconceitos e entendi que a relação de André e Eduardo era uma verdadeira lição para muitos casais. Uma lição de compreensão dos sentimentos alheios, de sinceridade, de liberdade, de desprendimento e (por que não?) de amor.
É lógico que a liberdade tão apregoada por eles não era assim tão fácil e não era para qualquer um, pois era um exercício constante de administração dos ciúmes e do egoísmo e que precisava ser sempre renovado. Era algo como uma busca espiritual constante, quase como uma iluminação, porém absolutamente possível. Embora ninguém precise seguir exatamente o mesmo modelo complexo (ou seria fácil?) de relação de André e Eduardo, o ideal seria se todos aprendessem, pelo menos, aquilo que eu tive a grande oportunidade de aprender: que ciúmes demasiados não levam a nada e só servem para dificultar a relação, que o egoísmo não passa de apego às coisas passageiras, que um diálogo franco é essencial, que ninguém é dono de ninguém e que, acima de tudo, liberdade é fundamental.

 _______________________________________________________________________________

Macho Man

Por Kiko Riaze (09/11/11)
“Você nem parece que é gay”. Ouço isso o tempo inteiro. Muita gente levaria esse tipo de comentário como um elogio, mas eu costumo aproveitar a oportunidade para quebrar paradigmas. Sempre replico da seguinte forma: “e o que é ‘parecer gay’ pra você?”.
É óbvio que eu já estou cansado de saber a resposta: “parecer gay” é ser estereotipado, afeminado, bicha louca, pintosa, quá-quá… Olhando por este preconceituoso “modo hétero” de ver as coisas, realmente, eu não pareço gay. Nem de longe, a menos que seu gaydar funcione bem. Ok, pelo menos razoavelmente.
Não pareço, mas sou. E me assumo. Às vezes, faço isso com um certo prazer. Gosto de ver a reação das pessoas. O espanto, a incredulidade, a curiosidade, até mesmo um certo desapontamento por eu não parecer aquele gay que paira no imaginário coletivo. Gosto de confrontá-las com o inesperado.
Sou o tipo gay-bofe, sim. Discreto, na minha, todo grandalhão e um pouco estabanado, meio Shrek. Aparentemente, não tenho nada de gay.
As bibas mais ortodoxas diriam que eu faço parte da nova geração de gays que se masculinizaram para atender aos padrões da sociedade (a tão falada heteronormatividade). Eu mesmo já pensei assim um dia, aliás até bem pouco tempo atrás, embora eu nunca tivesse feito nenhum esforço para ser masculino a fim de agradar ninguém. Se eu estou seguindo uma nova tendência, então eu faço de forma inconsciente, pois o meu jeito é absolutamente natural.
Mas será que esta análise é mesmo correta?
Será que o gay masculino agrada mais a sociedade do que os gays afeminados?
Pode parecer inusitado, mas refletindo bem, eu cheguei à conclusão que a resposta é “não”.
Héteros querem mesmo é ver as bichas loucas, os veados escandalosos, afeminados e reforçados pelos personagens caricatos da televisão. Héteros querem poder se comparar às bichas pintosas para se sentirem diferentes e superiores. Querem continuar taxando os gays como afeminados para tratá-los como uma classe inferior a fim de manter o seu status de machos, para manter sua dominação.
Sendo assim, héteros não querem gays como eu. A masculinidade dos gays bofinhos é uma afronta para eles. É como se nós estivéssemos penetrando num terreno que não nos pertence. Eles sentem-se ameaçados, porque tiramos deles a principal arma que eles possuíam para nos ridicularizar. Eles percebem que a figura do macho tão valorizada pela sociedade também pode pertencer aos gays… E isto os incomoda absurdamente.
É… Acho que estive equivocado este tempo todo. Os gays masculinos de hoje não estão seguindo um padrão imposto pela sociedade, nem são produtos fabricados do meio como se costuma pensar. A verdade pode ser justamente o contrário. São as bibas mais afetadas que atendem à heteronormatividade, pois elas assumem exatamente aquele papel estereotipado que se espera dos gays.
É um ponto de vista… Vocês concordam?

_______________________________________________________________________________

 Mandamentos para quem?

Por Maycon Benedito – colaborador (05/03/11)
Nos últimos tempos tenho entrado em sites e blogs direcionados ao público gay e tem me chamado atenção um certo tipo de tema. São coisas do tipo “mandamentos gays” ou “coisas que gays modernos devem saber”. Quando leio esse tipo de matéria é inevitável lembrar daquelas revistas para adolescentes que circulam entre as meninas – algumas meninas – que tentam ensinar coisas do tipo “como saber se o seu namorado é o seu amor verdadeiro”.
Ser gay é muito mais do que uma série de etiquetas, de recomendações, de ordenações sobre o ideal de viadagem. Aliás, é justamente o ideal sobre o que se deve ser que provoca muito sofrimento neste mundo. Se fôssemos seguir os “manuais do que se deve ser” a homossexualidade não existiria, pois ser heterossexual é tido como o ideal na nossa sociedade.
Coisas como: gay deve ser fervido, gay deve estar sempre disposto a ir a balada e trepar, mesmo quando quer ficar em casa ouvindo música são, no mínimo, recomendações cruéis. Nós, seres humanos somos diferentes entre si. E nós gays também somos seres humanos e temos diferenças dentro da nossa própria diferença.
Não dá para ficar criando manuais sobre o que é ou sobre como se deve comportar alguém. E isso vale para todas as diferenças: negros, mulheres, homossexuais, jovens, idosos, etc…
Por isso, se quiser, seja metaleiro, mesmo sendo gay, seja pagodeiro, mesmo sendo gay, seja escandaloso, introvertido, romântico, promíscuo, magro, gordo, depilado ou cabeludo, mas seja isso não por manuais , mas porque o seu desejo pede que você seja.

 _______________________________________________________________________________

Medo de amar

Por Kiko Riaze (27/01/10)
Sempre que há um debate sobre as dificuldades nos relacionamentos gays, as primeiras questões que vêm à tona estão sempre relacionadas à promiscuidade, ao preconceito, à incompatibilidade nas posições sexuais, à saída ou não do armário e mais um ou outro ponto já exaustivamente discutidos em revistas especializadas,sites, blogs e divãs. Muitos dos quais com ênfase ampliada por visões erradas que se tem da homossexualidade e da própria vida gay. No entanto, no meio destas rodas muito pouco se fala do medo que muitos gays têm de se entregar ao amor.
Reconheço que este seja um medo presente em qualquer ser humano, entretanto, percebo que entre os gays este tipo de sentimento se torna ainda mais acentuado.
Recente exemplo aconteceu com Marcos (nome fictício), um amigo meu que estava super-hiper-mega-empolgado com seu atual relacionamento, só faltava lançar coraçõezinhos pelo ar. Até que alguns dias atrás ele veio conversar comigo todo cabisbaixo e choroso, dizendo que tinha “feito uma grande besteira que poderia lançar o namoro dele por água abaixo”.
Essa besteira foi a seguinte: tinham os dois pombinhos acabado de passar uma noite maravilhosa de muito amor e sexo num motel quando, de repente, meu amigo desandou a chorar. Deu crise. Fez a louca mesmo. Disse para o namorado que estava chorando por medo de sofrer, porque estava amando demais e não queria se machucar caso eles viessem a se separar em breve. E por causa disso, achava melhor parar por ali.
Resultado disso: O medo de Marcos acabou sendo transferido para o namorado, que agora não sabe se mantém o namoro porque “está cansado de gente maluca na vida dele” e tem medo de que aquela choradeira sem motivos de Marcos se repita. Ou seja, por causa de uma crise de insegurança, Marcos conseguiu estragar uma relação que estava indo de vento em popa.
Já viram esse filme? Aposto que sim, tirando-se as devidas proporções (e maluquices).
Sei do histórico do meu amigo e do quanto ele sofreu no passado, e também sei que muitas vezes este tipo de insegurança nada mais é do que reflexo daqueles velhos fatores que citei lá no início e que acabam aprisionando as relações gays num ciclo vicioso de tentativas e erros.
É aí que faz-se necessário fazer uma pausa para reflexão e analisar o quanto se está privando de viver intensamente pelo simples medo de arriscar, por temer um futuro que sempre será incerto. Se o namoro vai dar certo ou não, só o tempo e as circunstâncias vão dizer. Mas enquanto isso, é necessário permitir-se, doar-se para receber em troca o mesmo grau de sentimento. Ou não. Impossível saber. Mas tampouco importa, não tem porque se preocupar com isso. O importante é viver o momento da forma mais proveitosa possível e ser feliz. Acho que isto serve para todos os aspectos desta vida. Esse tal medo de amar não serve para nada, a não ser para tirar de nós os momentos maravilhosos que poderiam ser vividos caso ele não existisse.
Como o genial Charles Chaplin disse certa vez:
“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.”

 _______________________________________________________________________________

Nick de pegação determina caráter de alguém?

Por Kiko Riaze (23/04/09)
Antes de começar a escrever este post eu percorri algumas famosas salas de bate papo gay da internet a fim de selecionar alguns nicks para ilustrar melhor o texto.
Vejamos alguns exemplos:
LEKE BOMBADAO 23CM
EduComTesao
MLKDotadopassivo
POLICIAL Puto SP 26a
PICÃO NA CAM-AGORA
BrowPunheteiro
MachoGulosoCAM
E por aí vai…Já passava de meia noite, era véspera do feriado de Tiradentes e a sala estava super lotada. Bombando mesmo. A maioria dos participantes mostrava nitidamente o desespero para encontrar um parceiro (ou dois, ou três, ou mais) para um fast sex sem compromisso naquela noite. Muitos provavelmente conseguiriam. Não seria tarefa tão difícil, pois a variedade de carnes virtuais expostas naquele açougue era enorme.
Mas vamos ao ponto: Vamos supor que você fosse um dos participantes daquela sala e resolvesse marcar um encontro com o MachoGulosoCAM, por exemplo. Depois de teclar no msn, vocês já iriam para o encontro sabendo exatamente o que ia rolar e como ia rolar, quem seria o ativo, quem seria o passivo e tudo o mais. Transariam loucamente, o tesão seria extravasado e, no final, o improvável acontecesse: uma estranha afinidade surgisse entre os dois. Algo como paixão à primeira vista (ou à primeira transa) e o cara do nick vulgar desse a entender que estava a fim de algo mais com você…
Eis a questão: Você namoraria um cara que conheceu na sala de bate papo com o nick MachoGulosoCAM?
Eu fiz esta mesma pergunta para um monte de gente que usa o bate-papo com frequência e a resposta quase unânime foi: NÃO!
Os motivos foram quase os mesmos. Uns disseram que não confiariam em um cara que passava o tempo se masturbando na webcam. Outros disseram que este não é o tipo de cara para namorar. Outros falaram que teriam vergonha de contar para os amigos a maneira “promíscua” como ambos se conheceram, etc…
Daí eu fiquei refletindo sobre o quanto é fácil fazer julgamentos e jogar pedra no telhado dos outros. Será que um nick vulgar realmente determina o caráter de uma pessoa?
É lógico que há muitos caras que entram no chat apenas em busca de sexo. Mas existem outros que gostariam, sim, de ter um relacionamento legal, se envolver com alguém, criar vínculos, se apaixonar… Pode ser que eles não revelem isto ali, na sala de bate-papo, onde o instinto sexual fala mais alto e as fantasias são liberadas. Mas num segundo momento este sentimento pode aflorar, por que não?
Estar escondido atrás de um nick vulgar, na minha opinião, não é uma vergonha. Todo mundo tem suas fantasias, seus momentos de libido à flor da pele, de vontade de extravasar, de se permitir fazer e dizer coisas que normalmente são anuladas no dia a dia.
Eu acho absolutamente normal e saudável. Melhor liberar a testosterona quando dá vontade do que ficar se frustrando.
Tem gente que gosta de se masturbar vendo filmes pornôs, vendo fotos em revistas. Tem gente que gosta de gozar falando ao telefone, tem gente que prefere a masturbação solitária do banheiro de casa, ou a masturbação comunitária de uma sauna ou de um banheirão público. Tem gente que gosta de ler contos eróticos, tem gente que gosta de se exibir na web cam… Tudo isso é sexo, é fantasia… Tudo isso é humano.
Aos olhos de alguns isto é feio e digno de reprovação, pois para mim esse conservadorismo não passa de hipocrisia. É o que acontece com algumas dessas pessoas com as quais eu conversei. Algumas delas confessaram fazer pegação em cinema de filme pornô, em sauna, etc…Mas disseram nunca ter coragem de namorar alguém que já tenha feito o mesmo…Tem coerência? Eu acho que não…
Ninguém é santo. Todo mundo dá uma escorregada… Nada mais natural. Mas será que é justo rotular alguém por isso? Uma pessoa que em algum momento de sua vida decidiu viver suas aventuras sexuais merece descrédito?
Para mim, excetuando-se as práticas criminosas, sexo é sexo e não determina caráter de ninguém.

 _______________________________________________________________________________

Relacionamentos gays duram menos, mas são mais autênticos

Por Kiko Riaze (29/10/09)
Existe uma idéia formada de que os relacionamentos gays duram menos tempo do que os relacionamentos heterossexuais. Embora existam muitos exemplos que poderiam servir para provar o contrário, no geral isso é verdade, sim. Mas nem sempre isso se dá pelo motivo que as pessoas associam que é a promiscuidade e a não disposição para assumir uma relação amorosa séria e monogâmica.
Há um outro ponto que ninguém analisa, mas sobre o qual eu venho refletindo desde que um casal de amigos gays resolveu romper a relação há uns dias atrás: a autenticidade presente no diálogo de um casal gay.
Esse pensamento se consolidou quando vi uns amigos héteros do trabalho combinando de irem para a “casinha” depois do expediente. Para quem não sabe, “casinha” é um eufemismo criado pelos homens para o tão bem conhecido “puteiro”. Deste grupo, 90% dos rapazes eram casados e com filhos.
Sem eu perguntar nada, um deles veio falar comigo, dando a desculpa de que frequentava a “casinha” porque realizava com a prostituta certas posições que a esposa talvez nunca aceitasse fazer. Em casa, a esposa só fazia o básico papai-mamãe. Fiquei pasmo quando ele me contou que a tal posição que a esposa talvez nunca fizesse era um simples e básico 69. Chocado, eu perguntei quanto tempo eles estavam juntos e me assutei pela segunda vez. Eles estavam juntos há 11 anos! Onze anos e não faziam nem um 69!
E tudo isso simplesmente porque não havia diálogo para expor as fantasias e desejos, por medo de ultrapassar a linha demarcada pelas convenções heterossexuais da sociedade. Eles tinham um relacionamento duradouro, é verdade, mas era morno, mascarado, incompleto e não tão feliz. Essa é a grande diferença entre os relacionamentos héteros e gays.
Os relacionamentos gays têm um diálogo mais aberto, mais franco e livre de preconceitos. A chamada liberdade gay não permite certas frustrações, pois já bastam as limitações do dia a dia. Os gays em sua maioria não têm medo de expor seus desejos, pois não estão presos à essas regras conjugais ultrapassadas. O objetivo maior de um homossexual que mergulha numa relação é estar realizado sexualmente e afetivamente. Só uma coisa ou outra não sustenta por muito tempo um relacionamento gay.
Meus amigos chegaram a esta conclusão. Conversaram como adultos e terminaram o romance que não tinha completado nem 1 ano. Separaram-se civilizadamente e estão muito bem. Não fizeram isso para cair na promiscuidade como se imagina. Estão apenas curtindo um estado de liberdade que parece mais justo e mais sincero que o anterior. E mesmo que quisessem cair na gandaia, qual o problema? Estão solteiros, agora e podem fazer isso à vontade. Diferente do meu colega de trabalho heterossexual que vive um relacionamento estável e aparentemente perfeito para os padrões sociais, porém cheio de problemas, omissões e desejos não vivenciados.
Chegando a esta conclusão, eu me dei conta de que os relacionamentos gays normalmente duram pouco sim, mas é melhor uma separação prematura do que uma vida inteira de farsa, hipocrisia, mentiras e sexo ruim.

 _______________________________________________________________________________

Saindo do armário para entrar na subcidadania? Uma reflexão sobre a cidadania numa sociedade heteronormativa

Por Joel Martins Cavalcanti – colaborador (05/10/11)
O Brasil se constitui como Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos, dentre outros, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. Um dos objetivos fundamentais, segundo a nossa Carta Maior, é promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Na prática, o texto constitucional não se concretiza. Além das enormes desigualdades sociais e regionais, a diversidade sexual, ainda, constitui óbice a direitos essenciais das pessoas. O Estado brasileiro trata diferentemente seus cidadãos com base no sexo, o que contraria expressamente seus princípios fundamentais.
Um conceito que ajuda a entender essa realidade é o de heteronormatividade que expressa às expectativas, as demandas e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da heterossexualidade como natural e, portanto, fundamento da sociedade.
Pela lógica da heteronormatividade, todas as pessoas devem ser heterossexuais e todos os bens produzidos pela sociedade, sejam eles materiais ou simbólicos, são destinados para quem vive segundo seus preceitos.
Os direitos fundamentais se referem aqueles direitos sem os quais o ser humano, se não os tiver, não se realiza completamente. Na perspectiva liberal, seriam esses direitos à liberdade, à propriedade, igualdade formal e segurança jurídica. Mais adiante, com as mudanças ocorridas na sociedade ocidental, sobretudo a partir das mudanças advindas da industrialização, novas necessidades foram surgindo, com isso novos direitos foram gestados, não sem muita luta política, como o direito à educação, à saúde, à previdência, ao um ambiente saudável, dentre outros.
A sociedade mudou muito. Ocorreram avanços em vários aspectos. Até bem recentemente, se comparado com a história milenar de exclusão, era impensável ver uma mulher no mundo público. O direito foi, por muito tempo, destinado aos homens. Basta lembrar o fim que levou Olympe de Gouges, na França revolucionária, quando pensou numa Declaração de Direitos da Mulher e da Cidadã. Apesar da assimetria de gênero ainda ser uma triste realidade no Brasil, ninguém mais defende, pelo menos publicamente, a violência contra a mulher ou a sua não inserção na esfera pública.
Conquanto todas as mudanças ocorridas no campo do direito, seja no aspecto político, social ou mesmo de gênero, homens e mulheres que contrariam à heternormatividade continuam a serem tratados de forma discriminatória e desigual formal e materialmente na lei. Ora, se os direitos fundamentais são direitos sem os quais o ser humano, se não os tiver, não se realiza completamente, como explicar que a sexualidade de algumas pessoas ainda obsta a concretização desses direitos? Daniel Borrilho disse que a homossexualidade permanece um obstáculo a plena realização de direitos.
Numa sociedade pluralista, como a brasileira, todas as pessoas, com todas as suas diferenças, sejam elas religiosas, políticas, de cor, idade, sexo ou de orientação sexual, deveriam ser contempladas pelo ordenamento jurídico nacional. Infelizmente não é.
Para Maria Berenice Dias, sem liberdade sexual o indivíduo não se realiza, tal como ocorre quando lhe faltam qualquer outra das chamadas liberdades ou direitos fundamentais. Até mesmo essa liberdade é negada, uma vez que, em vários lugares, a manifestação pública de afeto entre indivíduos do mesmo sexo pode acabar em violência grave, indo até a morte, com a mídia tem mostrado constantemente. A propósito, o Brasil, apesar de ter a maior Parada da Diversidade Sexual do mundo, também, é o país onde mais gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são assassinadas.Apesar de avanços recentes na jurisprudência, sobretudo o reconhecimento da união estável entre homossexuais, a legislação trata desigualmente indivíduos que não são heterossexuais, não para fazer a justiça, como pensou Rui Barbosa em sua “Oração aos Moços”, mas para obstaculizar direitos essenciais, como o casamento civil, a adoção e a criminalização da homofobia.
Sair do armário é uma expressão usada para se referir aos não heterossexuais que decidiram declarar sua orientação sexual. Mas muitos preferem ficar nas sombras, em guetos, porque sair do armário implica enfrentar o preconceito e a discriminação familiar, social e até jurídica. De certa forma é entrar na subcidadania, uma vez que mesmo tendo os mesmos deveres que homens e mulheres heterossexuais, não encontram os mesmos direitos disponíveis na Legislação.
O Brasil só será realmente um Estado Democrático de Direito quando todos seus cidadãos sejam tratados iguais formal e materialmente, sem quaisquer tipos de preconceitos e discriminação, incluindo nesse rol, a orientação sexual.

 _______________________________________________________________________________

Sem vergonha de ser passivo

Por Kiko Riaze (28/02/10)
Muitos dos posts que eu escrevo normalmente são inspirados por situações do cotidiano que chegam até mim por intermédio, principalmente, dos meus amigos. É até engraçado, porque muitos deles acabam fazendo de mim um conselheiro. Legal que isso aconteça, pois me faz perceber o quanto eles confiam em mim e nas minhas opiniões. Mas muitos não percebem que, na verdade, sou eu que estou aprendendo coisas novas com eles a cada dia, através de suas vivências e conflitos, pois isto me faz refletir. E muito.
Esta semana um amigo trouxe até mim uma situação que me surpreendeu: ele me contou que todas as vezes em que terminava uma transa ele sentia vergonha de si mesmo por ter sido passivo!
Dá para acreditar? O que era para ser prazeroso tornava-se para ele um grande fardo no final.
Ele me explicou que o pai dele não sabe que ele é gay, mas vive dizendo que homem que “dá a bunda” é inferior e indigno. Por isso, toda a vez que meu amigo fazia o papel de passivo numa relação acabava se lembrando das palavras do pai e caia em depressão.
Não é preciso ser psicólogo para saber que esta reação é fruto do preconceito e do machismo do pai. É muito óbvio. Meu amigo também sabe disso, mas não consegue se livrar deste estigma, por mais que tente trabalhar sua mente em contrário. Esse sentimento de culpa é tão forte que às vezes ele fica um período longo sem sexo, apenas para não “decepcionar” o pai e a si mesmo, de forma inconsciente.
Esta imagem de que o gay passivo tem menos valor é muito acentuada na sociedade. Vem desde criança, quando aprendemos que para ofender um homem basta mandá-lo “tomar no cú”. Desculpem os palavrões.
É muito comum ouvirmos falar de homens que transam com outros homens e não se consideram gays (ou bi) apenas porque só fazem o papel de ativo. Como se ser passivo fosse status quo de todo homossexual.
Até mesmo no meio gay, o passivo acaba sendo posto em situação inferior, enquanto o ativo é superhipermega valorizado. Já vi muito gay usar termos como “passivona” e outros quando quer provocar ou diminuir outro gay.
Também já vi muitos caras (passivos) dizerem em rodas de conversa que são ativões por pura vergonha de assumir sua “passividade”. Gente, que problema há nisso?
Não se pode dizer que um gay é fraco e submisso pelo fato de ser passivo. Ora, quantos homens héteros casados que vocês conhecem são dominados por suas esposas? Na prática mesmo, a maioria, né?
Cama não é parâmetro para se medir valor ou força de ninguém. No sexo tudo se altera, se transforma. Em cima de uma cama, o que vale é a fantasia e o prazer. Ser passivo ou ser ativo numa relação é condição que fica em cima da cama, entre quatro paredes, não se aplica nas situações do dia a dia.
Conheço sargentos do exército, jogadores de futebol, lutadores de jiu-jitsu e praticantes de outras atividades másculas que são totalmente passivos na cama. Em contrapartida, já vi cabeleireiros, maquiadores e outras pessoas que praticam atividades tidas como feminilizadas fazerem apenas o papel de ativo dominador. Acho que todo mundo sabe disso, nem precisava citar.
Querem outro exemplo? Entrem nas salas de bate papo da uol que vocês vão encontrar chats de homens héteros que gostam de ser dominados e até mesmo penetrados por mulheres. E daí?
Sexo é sexo. Diferente da mulher, o homem sente muito prazer no ânus sim, independente de ser hétero ou homossexual. É fato comprovado que, se existe um ponto G no homem, este ponto fica na região anal. Quer os homens admitem ou não. Muitos preferem nem experimentar.
Então, para os amigos que curtem ser passivos e os que pensam em experimentar, deixem seus preconceitos de lado e vivam seu prazer de forma ilimitada, pois sexo é muito bom e o que rola na cama com vocês não deve interferir em nada na sua vida social. Nem servir para se diminuir, ou diminuir os outros. Aliás, nem é da conta de ninguém, né?
Uma vez eu li uma frase da escritora e jornalista Marlene Cohein que se aplica muito bem: “Em matéria de sexo, uma única recomendação prevalece: quanto menos controle sobre a situação na cama, melhor.”
E usem camisinha.

 _______________________________________________________________________________

Sexo pela webcam – fantasia ou traição?

Por Kiko Riaze (15/06/10)
Jeferson e Paulo (nomes fictícios) terminaram ontem um relacionamento de quase 5 anos e isto me deixou bastante surpreso, afinal de contas, cinco anos não são cinco dias. E levando-se em consideração que eles são gays e precisaram enfrentar todo tipo de dificuldades para ficar juntos, estes 5 anos se tornam ainda mais significativos. Mas acabou. Jeferson me ligou ontem pela manhã para me dar a notícia. No início imaginei se tratar de mais um caso típico de relacionamento desgastado pelo tempo, mas abandonei completamente esta hipótese quando Jeferson começou a chorar feito uma criança. Saí da minha mesa, abandonei as tarefas e lá fui eu para a escada de incêndio do prédio onde eu trabalho para ouvir tudo o que Jeferson tinha para contar.
Poderia resumir quase quarenta minutos de conversa com umas poucas palavras: “Jeferson foi traído”. Eu até acharia o fim do romance justificável se ele tivesse me dito que Paulo o vinha enganando com algum amante ou andasse dando suas escapulidas de vez em quando por aí. Mas a “traição” de Paulo não teve um elemento real, ou melhor, palpável: Paulo traiu Jeferson virtualmente pela webcam.
A descoberta veio quando o computador de Jeferson quebrou e ele precisou usar a máquina de Paulo para concluir um trabalho. Fazendo valer aquele velho ditado de “quem procura acha”, Jeferson encontrou na pasta de conversas gravadas do MSN um diálogo pra lá de quente entre Paulo e um outro rapaz, onde eles claramente se exibiam nus pela web cam. Foi quando o mundo de Jeferson caiu. Profundamente ferido, ele resolveu pôr um fim à relação.
Quando me telefonou, senti que Jeferson não queria apenas um ombro amigo, ele também esperava ter de mim uma aprovação pela sua decisão. E se decepcionou.
Entendo perfeitamente o sentimento dele, mas o modelo de comportamento que Jeferson sempre idealizou para Paulo não apenas é hipócrita como também é absolutamente utópico. Ilude-se quem acha que o companheiro não terá olhos para outras pessoas. O mundo é cheio de pessoas belas e atraentes e seria uma maldade tremenda, além de extremamente egoísta, exigir que elas não sejam apreciadas na intenção de se ter exclusividade.
A sexualidade do homem é muito estimulada pelo visual. E a internet veio para facilitar este impulso. Uma vez eu li que 70% dos homens acessam pornografia pela internet diariamente, e nisto incluem-se casados, solteiros, jovens, velhos, héteros ou gays. Paulo apenas engrossou este contingente. A curtição dele era apenas voyeurismo na webcam, exibição e masturbação. Nunca marcou um encontro com ninguém, mesmo porque a maioria de seus contatos pornográficos eram de outros Estados (talvez até mesmo para não cair em tentação). Ele assistia à exibição alheia como quem assiste a um filme pornô, com a diferença de ser interativo.
Será que isso é traição?
Pode ser dependendo da mentalidade e do tipo de relação que se tem. Alguns vêem traição num simples olhar, ou num pensamento de desejo. Outros no contato físico, num beijo, no sexo. Há casais liberais que transam com terceiros e só consideram traição o envolvimento sentimental. Fidelidade é algo muito relativo.
Pensando assim, a mágoa e a atitude de Jeferson até se tornam compreensíveis, mas nem por isso eu me sinto comovido a ponto de concordar com ele. Paulo, assim como todo indivíduo do sexo masculino, tem as suas fantasias. Alimentá-las é saudável e não significa que ele vai realizá-las. Tem gente que gosta de assistir filme pornô sadomasoquista daqueles bem pesados, mas jamais se permitiria ser amarrado numa corda e chicoteado até sangrar… Fica só na imaginação.
Se eu, por exemplo, me preocupasse com a coleção de filmes pornôs gays que meu parceiro baixa da net, ia acabar ficando paranóico. Certamente ia achar que ele deseja mais aqueles homens megasarados do que a mim e que me trocaria pelo primeiro muscleboy que passasse na frente dele. Talvez até o proibisse de frequentar academias. Mas não é bem por aí que a coisa funciona. Eu sei que tudo não passa de um estímulo sexual (como a pegação na webcam de Paulo) e que no final fica apenas a imaginação. Quem nunca se imaginou fazendo sexo com um modelo de revista? Fantasia é fantasia. E já que meu parceiro tem uma, porque não conhecê-la mais um pouco e até mesmo usá-la para apimentar a relação?
Foi o que tentei dizer a Jeferson. Espero que tenha surtido algum efeito e que ele não jogue para o alto uma relação de 5 anos por um motivo que nem ao menos é palpável.
E para os exibicionistas comprometidos de plantão, fica a lição: nunca gravem suas conversas no MSN, afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente.

 _______________________________________________________________________________

Sexo para ver

Por Giselle Jacques – colaboradora (20/03/11)
Uma amiga, a quem preservarei, veio me dizer que, depois de ler mais dos meus escritos e sobre mim, entendeu que não era a única a pensar e sentir daquela maneira. Ela falava do tal “fetiche” feminino de ver dois homens na cama. A declaração dessa amiga (bastante contente, por sinal, talvez por poder falar disso com alguém) vem reforçar meu ponto de vista: muitas mulheres reprimem desejos e fantasias por culpa dos dogmas sociais. Em especial, o que se refere a sexo gay.
Notem que eu disse “ver” dois homens na cama e não “ter” dois homens na cama. Muita diferença em uma só letra.
Nós, mulheres, temos permissão social para usufruir da beleza, seja masculina ou feminina. Regalia nossa pela condição romântica e pueril na qual nos coloca a fauna machista. Então, é até natural que duas mulheres se toquem para agradar aos olhos dos machos. Elas estão “brincando” de sexo. Não me batam, é assim mesmo que eles pensam.
Quando a coisa se inverte é que começa o problema. Para início de conversa, homem que é homem não acha homem bonito. No máximo, simpático, quando muito. Dois homens juntos, então, é a “visão do inferno”, como já ouvi de alguns. E isso porque eles não estão “brincando de sexo”. Ao contrário, é sexo ao quadrado!
Toda essa moralidade do avesso acaba reprimindo uma infinidade de fantasias. No que tange a mulheres, sim, gostamos muito da estética masculina. Os corpos deles são bonitos, agradáveis aos olhos, excitantes. E a interação entre dois corpos bonitos, agradáveis e excitantes é uma opção bastante interessante. Não somos tão visuais, concordo. Somos mais táteis, usamos mais a imaginação. Todavia, observar sexo mexe com os sentidos. E sexo gay é, talvez, uma amplificação de sensações.
Uma prova disso é o gosto feminino por filmes como “As Idades de Lulu”, do espanhol Bigas Luna, que (apesar da moralidade embutida) traz a tona as fantasias de uma mulher comum. E se tantas de nós gostam dos filmes, é porque temos, sim, esse fetiche. Só nos falta espaço social para admitir.
Não estou dizendo para ninguém sair por aí vestindo camisetas com slogans eróticos, nem para coagir seus companheiros héteros a arranjar um “namorado”. Mas aceitar esse desejo já é um bom começo. Se agrada, não reprima, explore. Cultive esse fetiche de forma saudável, seja na mente, em conversas, imagens, livros ou filmes (ou ao vivo!). Se for sozinha, tudo bem, lembre que ninguém tem nada a ver com seus devaneios. Se for a dois (ou três), aproveite o momento. Afinal, quem disse que fantasias eróticas são privilégio só deles?

 _______________________________________________________________________________

Sexualidade e Política

Por Fernando Lebkuchen – colaborador (18/06/11)
A sexualidade, tal como as características físicas, é própria e única em cada indivíduo e, por isso mesmo, embora natural, vem sendo tratada como tabu ao longo dos séculos em várias culturas, principalmente na ocidental. Ao se transferir para a esfera do pecado, da discriminação por gênero, passa a ser fator de dominação ideológica e, portanto, de dominação política. Não é novidade que na cultura judaico-cristã sexo é visto quase que exclusivamente como meio de procriação, relegando a um segundo e muito distante plano a questão do prazer, vista como proibitiva.
Diferenciar culturalmente os sexos através de símbolos que vão da indumentária às rígidas atribuições sociais que cada gênero deve desempenhar dentro de seu grupo social são práticas adotadas desde priscas eras como forma de demarcar territórios. Devido a seus atributos físicos de força e virilidade e pelas facilidades inerentes ao seu papel na procriação, o homem sempre exerceu a primazia absoluta sob a forma do pátrio poder. A mulher é tida como a antítese do homem: frágil, dependente e destinada a cuidar da prole. No papel de antítese, não lhe restou muita coisa a não ser incorporá-lo. Tal situação durou séculos e se cristalizou como modelo social devido à atividade belicista em que os homens se encontravam continuadamente. Guerras e conquista de territórios eram ao mesmo tempo atividade econômica e social, reforçando os papéis masculino e feminino neste contexto.
Com o advento da revolução industrial no séc. XVIII e sob a influência dos ideais burgueses da revolução francesa, o novo modelo sócio-econômico traz em seu bojo uma redefinição dos papéis sociais de homens e mulheres. A estrutura permanece exatamente a mesma, mas com novo layout. A diferença é que a mulher passa a ser tratada como a rainha do lar, com direito exclusivo à beleza e aos mimos, tidos agora como atributos exclusivamente femininos. Nesta gaiola dourada as mulheres viraram dondocas, quase objetos. Os homens desfrutavam de uma relativa comodidade desde que desempenhassem condignamente seu papel de provedor.
É só no séc. XX, com a divulgação em massa dos novos padrões de beleza e comportamento pelo cinema, que teremos a primeira grande quebra de paradigma no que diz respeito ao indivíduo masculino. Não basta mais ser o provedor. Agora tem que ser sedutor, romântico, poderoso, herói e, pela primeira vez na vida, ao homem é requerido um atributo antes tido como essencialmente feminino: a beleza física.
Para se ter idéia da revolução que isso representou nos costumes da época, o ator italiano Rodolfo Valentino, principal galã Hollywoodiano do cinema mudo, angariou um sem-número de desafetos entre o público masculino ao dar vida ao primeiro latin lover da sétima arte. Além dos ataques histéricos das mulheres nos cinemas, os homens tinham que aguentar as comparações a que eram submetidos por parte do mulherio. Quando ele morreu em 1926 aos 31 anos houve uma onda de suicídios entre as mulheres e, segundo as más línguas, muita festa entre os homens. Só que tudo estava fadado à mudança. Depois de Valentino vieram Cary Grant, Humphrey Bogart, Gary Cooper, Gregory Peck, Tyrone Power, Errol Flynn, Montgomery Clifft, só para citar alguns. O novo padrão masculino que existia só na telona passa a ser cobrado do homem comum no mundo real.
Para aumentar seus problemas, o velho machão ganhou rivais de saias em seu sacrossanto reduto: o trabalho. As tais rainhas do lar começaram a sair em passeatas e exigir o direito de votar. Foram às fábricas, pegaram no pesado e começaram a fazer tarefas antes somente exercidas pelos homens, ameaçando a hegemonia do macho. Começaram a ocupar postos-chave na sociedade: médicas, juízas, empresárias e até militares. Era muita coisa para um só gênero agüentar. Além de terem que dividir território com a sua antítese histórica ainda tinham que se empenhar em seguir padrões de beleza e se adaptar a eles sob pena de não serem aceitos por aquelas a quem estavam acostumados a mandar.
Isso era demais para suas pobres cabeças… Para piorar, uma nova “classe” que abertamente abria mão das prerrogativas machistas por também ser vítima desse modelo saiu das sombras em que vivia e se rebelou contra o modelo. Antes conhecidos por maricas, pederastas, transviados, os gays começaram a se organizar já nas primeiras décadas do séc. XX na Europa e a partir dos anos 50 nos EUA na tentativa de terem seus direitos civis reconhecidos.
Até mesmo o padrão da bicha afetada começava a ser questionado, pois esse estereótipo era também uma concessão do mundo machista aos homossexuais como forma de rotulá-los e identificá-los como sub-grupo dentro da sociedade, associando-os à feminilidade, sensibilidade, e fraqueza física – tudo que lembrasse o feminino, alojando-os num limbo social onde não eram nem uma coisa nem outra e transformando-os em caricaturas de si mesmos.
A revolução sexual dos anos 60, o vexame da guerra do Vietnã e as crises políticas e sociais que permearam a 2ª metade do séc. XX questionando os modelos capitalista e socialista redesenharam os costumes da sociedade ocidental. Numa sociedade onde as convicções e ideologias entraram em crise e o culto ao corpo e ao consumo assumiram proporções mega dimensionadas, tanto homens quanto mulheres se vêem aprisionados em novos e rígidos padrões estéticos.
Com este redimensionamento, sobra apenas o próprio corpo como forma de expressão política e de afirmação. Incapazes de se enquadrar em qualquer ideologia e defender qualquer posição, os filhos acabam se tornando a expressão da realização social. Procriar é antes de mais nada, reforçar os papéis de macho e fêmea, último bastião da sexualidade hétero que não foi desconfigurado pelas mudanças sociais.
Talvez a única e perigosa ideologia aceita por esta sociedade em crise e que traz em seu bojo a tentativa de resgate do antigo “status quo” seja a do fundamentalismo religioso de direita, que assume papel importante na defesa da tese de um mundo dividido naturalmente entre homens e mulheres e que vê no surgimento de uma comunidade LGBT organizada a origem de boa parte dos males desta mesma sociedade altamente incompetente para lidar com suas próprias mazelas.
Neste cenário, os LGBTs são vistos como a antítese dos dois gêneros e dentro dessa ótica política passam a ser rechaçados por ambos. Enquanto os gays ficavam na penumbra, sem muita exposição, ocupando o limbo que lhes era destinado, havia uma questionável “tolerância”. A partir do momento em que há a exposição e a luta por reconhecimento, os ânimos começam a se alterar. Chega-se ao ponto de haver uma declarada caça às bruxas, no melhor estilo fascista de ser.
Numa estranha simbiose ideológica, homens e mulheres, antes rivais seculares, agora se unem para ir contra aquilo que chamam de “o terceiro sexo”, repassando aos LGBTs o papel do gênero invertido, numa óbvia tentativa de negação através da marginalização social. Fica difícil para os héteros reconhecerem num homem sem trejeitos um homossexual. Afinal, além de desmontar o estigma da bicha afetada, esse mesmo gay ousou se posicionar dentro do seu grupo social sem abrir mão de sua própria masculinidade, atributo até então quase que exclusivo do mundo hétero masculino. Num esquema social onde a secularização dos papéis sociais foi respeitada sem muito questionamento, talvez essa seja a maior quebra de paradigmas. Isso pode parecer muito normal aos membros da comunidade, mas é totalmente estonteante para os padrões hétero vigentes. Reconhecer na nova antítese do padrão as mesmas características até então atribuídas somente ao homem hétero tornou-se motivo de ira entre os indivíduos que se recusam a aceitar as mudanças na estrutura social. Na natureza o homem é o único ser, dentre as mais de 400 espécies de animais pesquisadas, que se mostra intolerante à homossexualidade. Todas as outras espécies se comportam de maneira natural diante daquilo que é natural.
Frente aos progressos no reconhecimento dos direitos de cidadania dos LGBTs, as rechaças e a intolerância aumentam assustadoramente, a ponto de alimentar numa grande parcela de gays a egodistonia – a negação de sua própria sexualidade – através de pressões sociais e ideológicas e até da violência física. Aliás, Egodistonia é a palavra do momento, é aquilo que os setores retrógrados da sociedade e os fundamentalistas religiosos esperam dos gays: a negação de sua própria sexualidade, como coisa que fosse possível dissociá-la do restante do ser. Assim fica fácil continuar com os mecanismos de dominação através da tática de segregação num jogo descarado do tipo: “ou se adapta ao que eu quero ou cai fora”.
A questão é que a sexualidade não é um país distante onde se possa auto-exilar. Ela faz parte de cada ser e é indissociável dele. Ao cobrar uma atitude egodistônica de um gay, exercita-se o jogo político do poder onde um grupo será beneficiado em detrimento do prejuízo de outro. E assim a velha estrutura tenta se manter de pé, a duras penas, insistindo em não reconhecer oque na natureza não precisa de aval para ser concebido. A única saída que vejo para este impasse é a informação. Informação e laicidade. Quanto melhor informados estivermos a respeito dos direitos e da cidadania, melhores cidadãos seremos ao pleitearmos junto aos setores governamentais a sua implementação. E quanto mais laico for esse Estado que implementa essas reformas sociais de inclusão, menos chances de ataques homofóbicos a comunidade estará sujeita, até que chegue o dia em que, finalmente, a informação e o respeito vençam a ignorância e o preconceito.

 _______________________________________________________________________________

Uma reflexão sobre homossexualidade, cultura e religião

Por Fernando Lebkuchen – colaborador (23/05/11)
Os acontecimentos das últimas semanas tem sido particularmente significativos para a comunidade LGBT. Desde a aprovação da união civil pelo STF até esta semana, tivemos a oportunidade de assistir a um desfile de baixarias capitaneado por Bolsonaro e membros das seitas evangélicas fundamentalistas. Para quem acessou o Yahoo nestes dias, pôde constatar, com tristeza, a enxurrada de xingamentos, maldições, zombarias e até ameaças de morte aos gays. Tudo isso em virtude do trâmite da PLC 122/2006 pela casa do senado federal.
Particularmente, fiquei apreensivo. Para mim o preconceito não é novidade. Sou da geração de 60, 40ão, crescido e educado no sul do país na época da ditadura militar e, portanto, conhecedor dos truques e artimanhas nada sutis e truculentas que a direita homofóbica costuma usar. Com a diferença de que naquela época a coisa se restringia a piadas, gozações e, às vezes, a algumas cantadas e investidas mais fortes por parte dos “machões” de plantão.
Mas, oque estamos presenciando nos dias de hoje, em pleno séc. XXI, é uma barbárie nos moldes do pior obscurantismo medieval. O que mudou de 30 anos pra cá? Teoricamente, deveríamos ter evoluído socialmente, a exemplo do que aconteceu em outras áreas, mas não. Embora tenhamos leis que criminalizam o racismo ele continua sendo praticado de forma velada e hipócrita. Embora tenhamos leis de amparo às crianças, nunca dantes foram tão abusadas, drogadas e abandonadas como nos dias de hoje. Embora haja leis trabalhistas que protegem os cidadãos, não é raro ver na mídia os casos de trabalho escravo que espocam por todos os cantos do país.
Embora gays e lésbicas tenham conquistado visibilidade, se organizado em grupos de direitos civis, mostrado seu valor nos vários campos da atuação profissional, política, intelectual, artística e desportiva – só para citar alguns – nunca foram tão ameaçados em sua integridade física e moral como está acontecendo atualmente. A razão servia de base para a maioria dos atos. O entendimento comum do que era possível ou não fazer, dos limites que podiam ou não ser ultrapassados era muito claro. Havia como que um consenso a respeito. E havia, como sempre há em grupos organizados, uma tolerância quando da infração de determinadas regras, desde que elas não produzissem efeitos muito arrasadores. Mas oque não havia, pelo menos sua existência era desprezada pela maioria da população dado seu reduzido número, eram esses grupos evangélicos fundamentalistas. No máximo, quando se via indivíduos dessas religiões andando na rua, eram vistos quase que como figuras folclóricas, dada a peculiaridade de suas vestimentas e hábitos. E é aí que quero começar minha abordagem, me permitindo ir mais além, há aproximadamente 150 anos atrás.
A Europa do séc. XIX era um grande caldeirão onde fervilhavam idéias de toda ordem. Nações se levantavam em guerras umas contra as outras, disputando territórios, mercados e colônias. A revolução industrial triunfara estrondosamente, trazendo em seu bojo toda uma nova mentalidade alicerçada na produção e no consumo em larga escala. O novo padrão social da burguesia pós-revolução francesa era bem mais austero e comedido, como que a querer afirmar que a “austeridade” deveria nortear essa nova sociedade, em contraste com a pompa e o glamour da nobreza. O acúmulo de riquezas, à custa da exploração de mão-de-obra, era encarada como normal. A nova família burguesa era mais cisuda, hermética, formada pelo provedor, a esposa e os filhos, nessa ordem de importância. Nesta época, na Inglaterra, ascendia ao trono a rainha Vitória, soberana profundamente religiosa, excessivamente pudica e seguidora dos costumes calvinistas, que ao longo dos seus mais de 60 anos de reinado impingiu aos Ingleses uma nova moral, muito mais acirrada, falso moralista e avessa a qualquer tema que dissesse respeito à sexualidade, fosse ela de qualquer natureza. A Inglaterra passou a ser vista como um paradigma e um bastião da moral e dos bons costumes dessa nova burguesia.
Nesse esquema social todos tinham seus papéis absolutamente bem definidos: os homens eram os provedores, detinham o pátrio poder sem limites: as mulheres eram donas-de-casa e se ocupavam da educação dos filhos e da manutenção da casa e os filhos eram educados para reproduzirem esse esquema indefinidamente, cada qual ocupando o papel que lhe cabia nessa sociedade. É a reprodução em escala social do complexo esquema das máquinas que alimentavam a economia: cada peça, cada engrenagem desempenhando sua função, não podendo falhar ou agir de forma inesperada.
Esse padrão de comportamento cruzou fronteiras e chegou aos EUA, então uma jovem e próspera nação que procurava se organizar e industrializar e recebia de braços abertos todo e qualquer cidadão do mundo que ali quisesse se estabelecer e trabalhar. Esse grande contingente de imigrantes trouxe consigo suas religiões e, chegando ao novo país, onde havia tolerância religiosa total, trataram de se organizar em grupos religiosos afins, com diferentes matizes confessionais, mas na sua grande maioria inspirados pelos princípios legalistas e moralistas do calvinismo. Com tal liberdade de expressão religiosa e tendo o modelo burguês de família para fazê-la frutificar, não foi difícil que surgissem um sem-número de denominações cristãs que se auto-denominaram pentecostais (de inspiração direta do Espírito Santo e independente dos cânones das grandes religiões cristãs ocidentais).
Pronto. Temos aí a fórmula do super homem: branco, casado, chefe de família orgulhoso de seu papel de macho e provedor, respeitado em seu círculo social e de quebra, com um canal aberto diretamente com o Criador que prontamente lhe responde seus questionamentos, desde que continue desempenhando exemplarmente seu papel. Essa ideologia sócio-religiosa incorporada ao american way of life chegou às nossas paragens já no início do séc. XX, mas foi a partir dos anos 70, no auge da ditadura militar, que ela começou a crescer por essas bandas.
A igreja católica, nesse momento já não tão coesa e apoiadora do regime militar como era em 64, apresentava rachas internos e rumos alternativos à sociedade, alguns deles considerados perigosíssimos aos olhos repressores do regime, como a teologia da libertação do frei Leonardo Boff. Foi a época em que grupos sociais que se organizaram com o apoio da igreja resultaram na criação do PT, das pastorais, do MST e tantos outros. Ficava difícil lutar contra pensamentos reformistas amparados por setores eclesiais, então houve a abertura e o incentivo para a entrada em massa de missionários americanos e suas teologias não-católicas para fazer contra-peso.
É espantoso como estas “igrejas” cresceram e se multiplicaram em ramificações pentecostais das mais diversas denominações e com os mais diversos matizes. É inegável que dentro de seus padrões de pensamento fizeram e vêm fazendo um trabalho eficiente no arrebanhamento de seus fiéis. O terreno por essas bandas também era muito fecundo: um país onde a sensualidade sempre fôra latente, onde tantas culturas e cultos diferentes conviviam em relativa harmonia eram o cenário perfeito para suas missões, alertando os pobres e incautos brasileiros de que a raiz de seus males residia na tolerância a religiões não-cristãs, na tolerância à sensualidade natural do povo e nas práticas religiosas consideradas ambíguas e demoníacas – aquela velha prática brasileira de ir à missa no domingo e dar uma passadinha no terreiro ou no centro espírita para tomar uns passes e fazer um descarrego no meio da semana.
Nesta época, onde geralmente a tolerância era maior em grandes centros, os homossexuais começavam a se expor, cada qual do seu jeito, mas geralmente em atividades consideradas apropriadas aos gays: estilistas, cabeleireiros, maquiadores, artistas, dançarinos e por aí vai. Estas profissões eram incentivadas, pois dizia-se que os homos eram sensíveis e perfeitos para exercê-las e, por atenderem em sua maioria o público feminino, não representavam um perigo para os maridos que os subestimavam e diminuíam, comparando-os a meninas indefesas.
Mas a exposição crescente na mídia e no cinema, o surgimento das boites exclusivamente voltadas para gays e lésbicas que funcionaram como centros catalisadores da comunidade LGBT, o surgimento de grupos organizados que batalhavam pelos direitos dos homossexuais e o fim da ditadura militar puseram em evidência um grupo que até então todos pensavam ser pequeno, de comportamento essencialmente afetado e, para alívio ou ilusão de muita gente, bastante distante de suas famílias.
E foi nesta época que sofremos o primeiro e grande golpe com o advento da AIDS e a estigmatização da doença como sendo a peste gay, o flagelo de Deus, o castigo pela imoralidade. Um portador de HIV era um pária, deslocado da sociedade, como se ostentasse uma marca feita a ferro no rosto para mostrar sua “punição”. Foi nesta época que algumas pérolas da maldade humana foram criadas dentro das igrejas e apregoadas como verdades absolutas sobre a ira de Deus contra os gays e seu suposto comportamento devasso.
A AIDS era ensinada por muitos padres e pastores como sendo um castigo enviado para punir os desviados sexuais e a mensagem nada subliminar que vinha junto no sermão era: sexo é pecado, dá castigo, e dos brabos: a morte. Se for sexo gay então, é um bilhete sem escalas para o inferno.
Mas a vida tem seus próprios meios de se organizar e dita seu ritmo sem pedir licença a ninguém. Não demorou muito para surgirem senhoras recatadas, donas-de-casa, daquelas que falamos lá trás, ocupadas com suas famílias e seus afazeres domésticos, infectadas pelo HIV. Também começou a aparecer crianças com o mesmo problema. E agora? Será que essas senhoras tão respeitáveis e essas crianças inocentes também eram gays e ninguém suspeitava? Sim, pois se a síndrome era um castigo aos gays, então, seguindo esse raciocínio, elas também tinham que ser homossexuais, pois estavam sendo castigadas… Mas não. Não se tratava de nada disso. O que aconteceu foi que uma das maiores máscaras dessa sociedade machista e hipócrita acabara de cair.
Ao rastrearem o comportamento dos parceiros dessas simplórias donas-de-casa e das pessoas que conviviam com muitas das crianças infectadas, descobriu-se que os maridos tão sérios, machos provedores e freqüentadores dos cultos e da escola dominical eram os agentes que tinham infectado suas esposas e, muitas vezes, infectado seus filhos ou filhas em atos sexuais pedófilos. Pronto. O grande baluarte da família perfeita de pai, mãe e filhos estava seriamente abalado, pois o seu principal membro, o macho provedor, revelava-se um indivíduo infiel, que mantinha relações extra-conjugais com mulheres e muito comumente com outros homens e isso fazia dele, se não um homossexual, mas um indivíduo de sexualidade duvidosa perante os padrões reinantes, por vezes até um usuário eventual de drogas injetáveis, enfim, uma antítese daquilo que se esperava dele.
Se houve uma única coisa positiva que a AIDS trouxe a esse mundo foi o fato de que a ciência desmistificou verdades tidas como imutáveis dentro do campo da sexualidade. Quebrou paradigmas seculares e desmascarou a hipocrisia. Ficou provado cientificamente que quando o assunto é sexo não há verdades absolutas. Heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade tornaram-se conceitos amplos, flexíveis, cujas fronteiras são tênues e delicadas. Se num primeiro momento a AIDS trouxe aniquilamento e frustração por podar a espontaneidade sexual, depois ela foi motivo de uma das maiores batalhas que os gays se dispuseram a lutar.
Apoiados por outras pessoas infectadas – usuários de drogas injetáveis, vítimas de transfusões contaminadas e outras formas de contágio – começaram a se expor publicamente em campanhas preventivas, dando seus testemunhos, levando esperança àqueles que sofriam pelo mesmo mal mas em silêncio, com medo das retaliações. A maneira positiva e desmistificadora como a doença foi encarada, até mesmo por pessoas que já estavam em fases adiantadas da síndrome, angariaram a solidariedade e o respeito de boa parte da população. Quando Cazuza e Renato Russo assumiram que estavam doentes, foi impressionante a reação de solidariedade que a maioria das pessoas demonstrou naquele momento, não só com os ídolos da música, mas com os seres humanos que estavam diante daquele impasse e a consciência de que, assim como eles, qualquer um poderia ser vitimado. Isso, de certo modo, trouxe os gays mais para perto da maioria das pessoas que nunca tinham tido um contato mais próximo.
Havia um perigo real que espreitava a todos e os gays não eram mais um grupo escolhido para ser castigado devido ao seu comportamento, mas foram os primeiros a serem vitimizados e os primeiros a erguerem a bandeira pela causa da prevenção e da cura. Isso os tornou mais humanos, menos mistificados aos olhos da maioria.
A ignorância não é algo que se acomode em sua própria mediocridade. Ela quer mais, sempre mais e não admite estar sozinha. Quanto mais companhia, melhor. Nem mesmo as descobertas da medicina acerca dos padrões do HIV, da desmistificação da peste gay e dos padrões sexuais foi suficiente para aclarar as mentes dos fundamentalistas. Os gays tinham que levar a culpa. Fosse do jeito que fosse. Apelaram ao legalismo do Antigo Testamento, às cartas de São Paulo, às visões e mensagens dos pastores e de seus fiéis e sabe Deus a que mais. O veredito estava pronto: culpados. A sentença também: o banimento da sociedade. Faltava só arranjar uma boa razão para a condenação porque, senão, em algum momento, o processo poderia ser arquivado por falta de provas.
Então, lançaram mão de um expediente bem baixo mas nada incomum em se tratando de justiça: a calúnia. Se o argumento da peste gay falhou, vamos acusá-los de pedofilia, de doentes, de imorais. Mas, senhores, novamente, vamos agir como seres bem informados! No Brasil, sabe-se, para nossa vergonha como brasileiros, que os índices de pedofilia são altíssimos se comparados aos de outros países. De cada 10 crianças molestadas sexualmente, 8 são meninas e 2 são meninos. Destas 8 meninas, 4 são estupradas pelo pai ou padrasto ou o namorado da mãe. As outras 3 são estupradas por irmãos, primos, tios, vizinhos e somente 1 é estuprada por alguém que não faça parte do círculo familiar. Os 2 garotos da estatística são vítimas de um homem bem mais velho, na maioria dos casos o pai ou um tio.
Eu pergunto: homossexuais gostam de pessoas do mesmo sexo, correto? Então, onde é que está a nossa relação com o grupo de crianças violentadas? Pior, se a maioria dos gays nem tem filhos, como podem, então estuprá-las?
Vamos deixar de hipocrisia! Quem faz isso, em sua absoluta maioria, são héteros e um dos maiores fetiches do universo sexual masculino heterossexual é pegar a gatinha, o neném, o filezinho, a carne nova, a virgem – os próprios adjetivos empregados pelos machões já remetem à idéia da pureza infantil. Daí para transar com criança é um pulo. Mas admitir isso seria admitir que o esquema da família pequeno-burguesa faliu – lembra do texto lá pra cima? – e daí só restaria jogar a toalha.
Acusar os gays de imorais é de uma leviandade só! Dizer que alguém é imoral porque a inclinação de seu desejo sexual é diferente daquele que foi eleito como o padrão é fazer a apologia à ignorância e à unilateralidade. Desejo e impulso sexual são fatos biológicos, comuns à espécie humana, manifestos de N maneiras e com graus de intensidade diferenciados de indivíduo a indivíduo. O que conta, no final, é qual impulso é o mais forte e daí deriva a orientação sexual.
Falar em opção sexual é uma falácia. Ninguém opta por ser hétero ou homo. Se nasce de um jeito ou de outro. O que irá influenciar a maneira como se exerce essa orientação é a mistura de características físicas que a sexualidade apresenta mais a maneira como o indivíduo reage e trabalha essas características. Aí sim, começamos a entrar no terreno da cultura, pois hábitos e maneiras de viver e conviver com seu próprio corpo e com outros indivíduos em sociedade, são métodos desenvolvidos pelo ser humano a partir da sua capacidade de raciocinar e organizar suas idéias.
Impulso e desejo sexual são fatos biológicos, livres do crivo da moral, tem a ver com tesão. Como, então, querer julgar alguém por sua orientação sexual? É leviandade pura! Seria o mesmo que julgar alguém pela cor de sua pele, pelas características físicas visíveis. A sexualidade não é visível, está nos genes. Por encontrar-se escondida, é julgada por parâmetros que não tem legitimidade alguma sobre ela pois a mãe natureza quando nos fez não levou em conta que neste planeta, onde ela reina absoluta, algumas de suas criaturas utlizariam de lógicas artificiais para pôr em cheque a legitimidade de sua criação.
A natureza atua na forma biológica. O homem, através da cultura, é capaz de criar conceitos distorcidos, forjados por lógicas que andam por caminhos tortuosos, geralmente de um obscurantismo atroz, para tentar justificar suas concepções equivocadas, alimentadas pelo orgulho e a pretensão de querer ser o dono da verdade e dos fatos que lhe fogem à razão. Isso sim é ignorância!
E é contra esse tipo de pessoas que travamos uma batalha nos dias de hoje. Pessoas que pensam por vias tortas, que manifestam pensamentos que nem seus são – por incompetência, preguiça, ignorância – iludidos por espertalhões da fé que sem qualquer senso de ética manipulam e castram sua capacidade de elaborar conceitos e opiniões, prometendo riquezas materiais e tronos de ouro no céu se honrarem seu compromisso com o dízimo e com as “verdades” absolutas, contadas em segredo aos “reverendos” pelo próprio Deus.
Esta é a lógica perversa do fundamentalismo: distorcer conceitos, negar fatos que não se enquadrem em seus cânones, alimentar a unilateralidade de opiniões, semear o ódio aos dissidentes de seus conceitos, fanatizar seus sectários, semear o terror. Só assim, numa escala cada vez mais ascendente, poderão exercer o tipo de poder maléfico e homicida que caracterizou todos os tiranos e fascínoras da história.
Em 1977, com a aprovação da lei do divórcio, houve uma avalanche de profecias catastrofistas acerca da família. Diziam que a família se extinguiria, que a devassidão tomaria conta, que o país, enfim, se transformaria num grande puteiro. Não foi isso que aconteceu. Pelo contrário. Apesar das retaliações impostas pela igreja aos fiéis que se “desviavam” dos seus caminhos, muitas famílias que se encontravam em situação ilegal puderam se rearranjar e passaram a existir de direito. A evolução jurídica desta lei foi a criação de outras leis que acabaram com a figura do filho bastardo, ilegítimo, elevando-o ao mesmo status dos filhos gerados dentro do casamento. A visão de união civil foi amplificada ao reconhecerem o concubinato como uma união estável e, portanto, com os mesmos direitos e deveres de um casamento tradicional. Quando chegou a vez do reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, a gritaria foi geral. Novamente, os apologistas do caos, porta-vozes do fim do mundo, fizeram soar suas trombetas desafinadas e nos elegeram como os agentes do mal a serem combatidos.
Nos tornamos as bruxas dos tempos modernos. Não querem que seu preconceito, sua zombaria, sua discriminação e suas teses malucas e até agressões sejam consideradas crimes. Se assim for, como poderão combater as bruxas? A graça está em ensinar criancinhas que gays são coisa do demônio. Quem sabe, com o tempo, poderiam até queimá-los em praça pública, mas se esta lei for aprovada, terão que procurar outro brinquedo, digo demônio, para manter as mentes dos fiéis ocupadas…

 

Os comentários estão fechados.

O Autor

Kiko Riaze nasceu no Rio de Janeiro e desde cedo demonstrou paixão pelas artes e pelos movimentos libertários. Atuou em um grupo de teatro amador no Retiro dos Artistas, cursou Escola de Cinema e foi membro de um grupo de militância LGBT. É autor do romance "Depois de Sábado à Noite", lançado em 2008 e do romance "Águas Cálidas" lançado em 2011, ambos com temática gay.

Contato:

kikoriaze@hotmail.com
Watch videos at Vodpod.

Visitantes:

  • 305,586 pessoas passaram por aqui